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sorvete de rapadura + créme brûlée + Class of '88 Barley Wine

Queremos harmonizar!

Quando vamos aos nossos restaurantes preferidos, é comum passarmos um bom tempo conversando sobre os pratos e fantasiando sobre as harmonizações que gostaríamos de fazer com eles. Às vezes, o inverso também ocorre: compramos alguma cerveja incrível e, ao bebê-la em casa, de pijama, no sofá, ficamos imaginando o quanto a experiência poderia ser ainda mais fantástica se a cerveja fosse acompanhada de um prato à altura. Sentíamos que estávamos fadados a usufruir das coisas de que mais gostamos, cerveja e gastronomia, em momentos separados. Para agravar mais um pouco a situação, “harmonização” é um dos assuntos cervejeiros que mais nos interessam. Pesquisamos bastante sobre isso e, sempre que possível, fazemos testes com pratos simples que preparamos, além de queijos e doces que trazemos para casa. Mas nada disso aplacava nossa vontade de harmonizar determinadas cervejas com pratos elaborados com o mesmo nível de excelência. Foi então que resolvemos finalmente colocar um certo “projeto” em prática. Pesquisamos alguns restaurantes que não cobram taxa de rolha e decidimos levar cervejas para testar nossas harmonizações dos sonhos. Para começar, escolhemos o restaurante de culinária sertaneja Mocotó.

dadinhos de tapioca + queijo coalho + Colorado Indica

A especialidade do Mocotó, além de comida nordestina, é cachaça. Mas, se assim como nós, seu negócio é mesmo cerveja, o Mocotó também oferece algumas opções. A Colorado Indica é, sem dúvida, a melhor delas, especialmente levando-se em conta o cardápio do restaurante. Para “abrir o apetite”, pedimos queijo-de-coalho dourado na manteiga de garrafa com melado, dadinhos de tapioca com molho de pimenta agridoce, além de uma porção de torresmo, que não saiu na foto porque só chegou depois e, bom, meu autocontrole foi 100% utilizado na espera por essa foto. A Colorado Indica é uma IPA com teor alcoólico de 7% e rapadura em sua composição. Quer dizer, como se não bastasse o malte tostado se fundir ao queimadinho do queijo, há ainda a rapadura, presente no melado e na cerveja (ok, a rapadura não é exatamente perceptível na Indica, mas a cerveja é deliciosamente adocicada, ainda que amarga). O dadinho de tapioca vem acompanhado de molho de pimenta. Precisa falar mais alguma coisa? Talvez precise, porque há quem diga que não se deve harmonizar pimenta com IPA, porque o lúpulo (e o álcool) intensificam a “picância”. Mas, se eu não gostasse de comida picante, não pediria pratos condimentados, né? É claro que deu certo. A Indica também acompanhou muito bem o torresmo. Além da semelhança do perfil tostado entre prato e cerveja, o teor alcoólico intermediário da Indica é ideal para atravessar a gordura do torresmo, sem impedir os grandes goles que um petisco salgado como esse pede. carpaccio de carne de sol com tomate-cervea e pimenta biquinho + pães deliciosos

Na sequência, pedimos carpaccio de carne-de-sol com pesto de coentro, tomate-cereja e pimenta biquinho (já experimentaram comer tomate-cereja e pimenta biquinho ao mesmo tempo, numa garfada só? Como é bom!) e tapioca de carne-seca com requeijão do norte e crocante de mandioquinha. Infelizmente não tiramos foto que preste da tapioca, mas não há uma vez que eu vá ao Mocotó e esse prato fique de fora da orgia gastronômica.

Chegou a hora da sobremesa. No caso do Mocotó, eram justamente as sobremesas que, a cada visita, faziam-nos divagar sobre possíveis harmonizações. O créme brûlée com doce de leite e umburana e o sorvete de rapadura foram nossas inspirações na escolha da cerveja que levamos ao restaurante. A Class of  ’88 Barley Wine, da North Coast Brewing Company, é uma cerveja comemorativa dos 25 anos de três cervejarias: Rogue, Deschutes e North Coast. Cada cervejaria criou uma receita de barley wine, com base no livro The Essentials of Beer Style, de Fred Eckhardt, lançado também em 1988, mesmo ano em que as três cervejarias foram fundadas. Além disso, os cervejeiros das três cervejarias participaram, juntos, das três brassagens.

Mas vamos à harmonização. A Class of ’88 da North Coast é uma American barley wine lupulada, com 10% de teor alcoólico, perfil caramelado e frutado típico do estilo, além de notas resinosas e terrosas provenientes dos lúpulos. Quando pensamos em harmonizar a Class of ’88 com o créme brûlée, nosso foco era o óbvio: cerveja com características carameladas e tostadas com uma sobremesa cuja marca registrada é uma crosta caramelizada e queimadinha. Eis que fomos surpreendidos por um elemento inesperado: a cerveja não só harmonizou por semelhança com o doce de leite e a crosta do créme brûlée, como também realçou deliciosamente a umburana utilizada na sobremesa! Talvez tenham sido as notas resinosas do lúpulo, talvez o adocicado do malte – que, assim como a umburana, pode lembrar baunilha -, mas o fato é que a combinação trouxe novas percepções, tanto para a cerveja quanto para a sobremesa. A Class of ’88 também deu muito certo com o sorvete. O teor alcoólico e a textura licorosa da cerveja são suficientemente potentes para a gordura e doçura da massa, mas o ponto alto mesmo foi o contraste da cerveja com os pedaços de rapadura, que têm um toque azedinho delicioso! Ai, ai, comida e cerveja realmente me fazem feliz.

sorvete de rapadura + créme brûlée + Class of '88 Barley Wine

Se você também gosta de harmonizar comida e cerveja, que tal incentivar os estabelecimentos a oferecerem cartas mais extensas e adequadas ao cardápio? Quando for a algum bar ou restaurante e fizer alguma harmonização, seja com cervejas do cardápio ou levadas por você, publique uma foto no Instagram ou Facebook e use também a hashtag #queremosharmonizar, como fizemos aqui.

Para encerrar, algumas sugestões a quem tiver interesse de levar cerveja aos restaurantes: 1) entre em contato com o estabelecimento de antemão. As regras quanto a levar a própria bebida são individuais e vários estabelecimentos mudam a postura de tempos em tempos. Alguns lugares cobram taxa (que pode variar de R$25 a R$100), mas não sabemos ainda como será a aceitação da cerveja nesses casos; 2) não leve cerveja que já faça parte da carta do restaurante, e procure consumir também alguma bebida vendida pelo estabelecimento (nem que seja água); 3) tenha bom senso. O propósito não é “se dar bem”, e sim proporcionar a si mesmo uma experiência plena.

Queijos e Cervejas 04

Queijos e Cervejas

Nem sempre um destino cervejeiro é um lugar que vende cerveja. Quem gosta de cervejas artesanais costuma gostar também de outros produtos que seguem a mesma linha, e conhecer boas lojas especializadas é tão importante como saber onde encontrar os melhores rótulos.

A Queijaria é a primeira loja de São Paulo especializada em queijos artesanais brasileiros. Seu proprietário, Fernando Oliveira, viaja pelo país visitando pequenos produtores, em busca de queijos genuinamente artesanais e únicos.

Queijos e Cervejas 01

Em parceria com A Queijaria, fizemos uma noite de harmonização de queijos brasileiros e cervejas brasileiras. Foram cinco os pares degustados:

– Moleson de cabra, da Frialp, Nova Friburgo/RJ + Saison à Trois, parceria entre a 2 Cabeças e a Invicta.

Existem apenas nove queijos tipicamente brasileiros, e o Moleson de Nova Friburgo é um deles. Produzido com leite de cabra, trata-se de um queijo de massa semidura e casca lavada e firme. Maturado por sessenta dias, o Moleson é amanteigado, levemente picante e de intensidade mediana.

A Saison à Trois é uma cerveja delicadamente ácida, condimentada, de amargor médio e final seco. As especiarias presentes na cerveja harmonizaram de maneira complementar com a característica levemente picante do Moleson. A acidez da Saison à Trois mescla-se à mesma característica presente no queijo. Apesar de delicada, a cerveja não “sumiu” diante do Moleson, graças à sua carbonatação abundante, que permite que os sabores da cerveja atravessem a consistência amanteigada do queijo.

Queijos e Cervejas 02
Tudo pronto para começarmos.

– Dionísio, da Fazenda Santa Luzia, Itapetininga/SP + Wäls Trippel, da Cervejaria Wäls.

Massa de frescal produzida com iogurte de leite de vaca, casca lavada com vinho branco e maturação em temperatura mais elevada: esse é o Dionísio. Com casca crocante, lembra queijo francês, só que mais suave. O queijo foi um sucesso tão grande na degustação que não sobrou uma peça sequer na loja. Como pode um queijo frescal se tornar algo tão complexo?

As notas de frutas amarelas e especiarias da Wäls Trippel combinaram muito bem com o Dionísio, cujas características são semelhantes às de um camembert. O azedinho e a terrosidade do queijo também mostraram afinidade com a acidez, efervescência e notas herbáceas da cerveja.

Queijos e Cervejas 03

– Tropeiro, da Fazenda Santa Luzia, Itapetininga/SP + Amburana Lager, da Way Bier.

O Tropeiro é um queijo suave, pastoso e untuoso. Fabricado com leite de vaca, tem sabor levemente adocicado. Na fase de testes para o evento, sequer cogitamos servir o Tropeiro com a Amburana Lager. A afinidade foi descoberta sem querer, quando testávamos o queijo com outras cervejas e acabamos comendo os pedaços restantes com a Amburana Lager, que estava sendo testada com outros queijos.

As notas de amburana presentes na cerveja casaram bem com o Tropeiro, que ora se mostra discretamente adocicado como a cerveja, ora salgadinho, contrastando com ela. Seu alto teor alcóolico mostrou-se compatível com a oleosidade do queijo, e não há muito mais como explicar, de forma teórica, este casamento incrível. Foi um daqueles casos de harmonizações improváveis, que fogem da cartilha e só são descobertas mediante muito teste.

Queijos e Cervejas 04

– Queijo “salaminho”, de Itamonte/MG + Rauchbier, da Bamberg.

Este queijo não tem nome ainda, mas durante os testes, foi apelidado de “salaminho”. Chamá-lo de provolone seria como chamar qualquer stout mais defumadinha de Rauchbier. Fabricado com leite de vaca, o queijo não é só defumado, como também bem seco e repleto de ervas. Em uma degustação às cegas, seria realmente possível confundi-lo com um embutido.

A harmonização, neste caso, é óbvia: a Bamberg Rauchbier é a versão líquida do “salaminho”. Defumado com defumado, não tinha como dar errado. Para melhorar, as notas carameladas da cerveja contrastam com o salgado intenso do queijo, enquanto a carbonatação elevada ajuda a aliviar essa característica.

Queijos e Cervejas 05

– Castanho, da Fazenda Santa Luzia, Itapetininga/SP + Imperial Stout, da Invicta.

Fechando com chavão de ouro, o Castanho é um queijo potente, maturado por três anos. Feito com leite de vaca, tem notas acastanhadas (daí o nome) e massa dura. De sabor adocicado, é perfeito para encerrar a noite.

O queijo casou, ou melhor, namorou, noivou, casou e saiu em lua de mel com a Imperial Stout da Invicta. Realmente feitos um para o outro, já que não há nada melhor que uma Imperial Stout para fechar uma refeição. A cerveja da Invicta é potente, tem alto teor alcoólico, corpo elevado, licoroso e aromas de café e baunilha. Todas essas características destacaram ainda mais as notas acastanhadas do queijo. Foi uma daquelas harmonizações que nos deixam sem saber de onde provêm os sabores que experimentamos. O resultado é um terceiro ser, ou seja, o casamento definitivamente foi consumado!

Queijos e Cervejas 06

Para terminar, tivemos uma agradável surpresa. Um dos participantes era cervejeiro caseiro e trouxe uma de suas cervejas para experimentarmos: a Zigbier Porter. A cervejaria surgiu quando um grupo de colegas de trabalho decidiu arrumar o que fazer enquanto esperava o horário do rodízio para voltar para casa. Compraram todo o equipamento e começaram as brassagens. A cerveja se tornou um sucesso entre amigos e clientes da empresa, e nós ficamos felizes com a oportunidade de conhecer a Zigbier. Além de ser uma boa Porter, cerveja caseira sempre ajuda a aproximar as pessoas. No final do evento, era como se todos os participantes estivessem dividindo uma mesa de bar.

A Queijaria fica na Rua Aspicuelta, 35, São Paulo/SP.

Comes e Bebes

Comes e Bebes

Comes e Bebes

A combinação perfeita

Você sabia que a enorme variedade de estilos de cerveja proporciona harmonizações incríveis? Diferentemente das outras bebidas, é possível combinar cerveja com todo tipo de prato, inclusive – e principalmente! – queijos e sobremesas, basta escolher a cerveja certa. Uma boa harmonização com cerveja traz um novo componente sensorial para a refeição, tornando a experiência gastronômica mais completa. Neste evento, serviremos quatro cervejas de diferentes estilos, harmonizadas com queijos, petiscos e doces, e explicaremos como montar harmonizações bem-sucedidas de diferentes pratos e ingredientes com os variados estilos de cerveja.

As inscrições devem ser feitas diretamente com a MundoMundano.

Amanhã divulgaremos os petiscos e as cervejas na página do evento no facebook.

Update: Fotos do evento na nossa página no facebook.