Category Archives: Restaurantes

sorvete de rapadura + créme brûlée + Class of '88 Barley Wine

Queremos harmonizar!

Quando vamos aos nossos restaurantes preferidos, é comum passarmos um bom tempo conversando sobre os pratos e fantasiando sobre as harmonizações que gostaríamos de fazer com eles. Às vezes, o inverso também ocorre: compramos alguma cerveja incrível e, ao bebê-la em casa, de pijama, no sofá, ficamos imaginando o quanto a experiência poderia ser ainda mais fantástica se a cerveja fosse acompanhada de um prato à altura. Sentíamos que estávamos fadados a usufruir das coisas de que mais gostamos, cerveja e gastronomia, em momentos separados. Para agravar mais um pouco a situação, “harmonização” é um dos assuntos cervejeiros que mais nos interessam. Pesquisamos bastante sobre isso e, sempre que possível, fazemos testes com pratos simples que preparamos, além de queijos e doces que trazemos para casa. Mas nada disso aplacava nossa vontade de harmonizar determinadas cervejas com pratos elaborados com o mesmo nível de excelência. Foi então que resolvemos finalmente colocar um certo “projeto” em prática. Pesquisamos alguns restaurantes que não cobram taxa de rolha e decidimos levar cervejas para testar nossas harmonizações dos sonhos. Para começar, escolhemos o restaurante de culinária sertaneja Mocotó.

dadinhos de tapioca + queijo coalho + Colorado Indica

A especialidade do Mocotó, além de comida nordestina, é cachaça. Mas, se assim como nós, seu negócio é mesmo cerveja, o Mocotó também oferece algumas opções. A Colorado Indica é, sem dúvida, a melhor delas, especialmente levando-se em conta o cardápio do restaurante. Para “abrir o apetite”, pedimos queijo-de-coalho dourado na manteiga de garrafa com melado, dadinhos de tapioca com molho de pimenta agridoce, além de uma porção de torresmo, que não saiu na foto porque só chegou depois e, bom, meu autocontrole foi 100% utilizado na espera por essa foto. A Colorado Indica é uma IPA com teor alcoólico de 7% e rapadura em sua composição. Quer dizer, como se não bastasse o malte tostado se fundir ao queimadinho do queijo, há ainda a rapadura, presente no melado e na cerveja (ok, a rapadura não é exatamente perceptível na Indica, mas a cerveja é deliciosamente adocicada, ainda que amarga). O dadinho de tapioca vem acompanhado de molho de pimenta. Precisa falar mais alguma coisa? Talvez precise, porque há quem diga que não se deve harmonizar pimenta com IPA, porque o lúpulo (e o álcool) intensificam a “picância”. Mas, se eu não gostasse de comida picante, não pediria pratos condimentados, né? É claro que deu certo. A Indica também acompanhou muito bem o torresmo. Além da semelhança do perfil tostado entre prato e cerveja, o teor alcoólico intermediário da Indica é ideal para atravessar a gordura do torresmo, sem impedir os grandes goles que um petisco salgado como esse pede. carpaccio de carne de sol com tomate-cervea e pimenta biquinho + pães deliciosos

Na sequência, pedimos carpaccio de carne-de-sol com pesto de coentro, tomate-cereja e pimenta biquinho (já experimentaram comer tomate-cereja e pimenta biquinho ao mesmo tempo, numa garfada só? Como é bom!) e tapioca de carne-seca com requeijão do norte e crocante de mandioquinha. Infelizmente não tiramos foto que preste da tapioca, mas não há uma vez que eu vá ao Mocotó e esse prato fique de fora da orgia gastronômica.

Chegou a hora da sobremesa. No caso do Mocotó, eram justamente as sobremesas que, a cada visita, faziam-nos divagar sobre possíveis harmonizações. O créme brûlée com doce de leite e umburana e o sorvete de rapadura foram nossas inspirações na escolha da cerveja que levamos ao restaurante. A Class of  ’88 Barley Wine, da North Coast Brewing Company, é uma cerveja comemorativa dos 25 anos de três cervejarias: Rogue, Deschutes e North Coast. Cada cervejaria criou uma receita de barley wine, com base no livro The Essentials of Beer Style, de Fred Eckhardt, lançado também em 1988, mesmo ano em que as três cervejarias foram fundadas. Além disso, os cervejeiros das três cervejarias participaram, juntos, das três brassagens.

Mas vamos à harmonização. A Class of ’88 da North Coast é uma American barley wine lupulada, com 10% de teor alcoólico, perfil caramelado e frutado típico do estilo, além de notas resinosas e terrosas provenientes dos lúpulos. Quando pensamos em harmonizar a Class of ’88 com o créme brûlée, nosso foco era o óbvio: cerveja com características carameladas e tostadas com uma sobremesa cuja marca registrada é uma crosta caramelizada e queimadinha. Eis que fomos surpreendidos por um elemento inesperado: a cerveja não só harmonizou por semelhança com o doce de leite e a crosta do créme brûlée, como também realçou deliciosamente a umburana utilizada na sobremesa! Talvez tenham sido as notas resinosas do lúpulo, talvez o adocicado do malte – que, assim como a umburana, pode lembrar baunilha -, mas o fato é que a combinação trouxe novas percepções, tanto para a cerveja quanto para a sobremesa. A Class of ’88 também deu muito certo com o sorvete. O teor alcoólico e a textura licorosa da cerveja são suficientemente potentes para a gordura e doçura da massa, mas o ponto alto mesmo foi o contraste da cerveja com os pedaços de rapadura, que têm um toque azedinho delicioso! Ai, ai, comida e cerveja realmente me fazem feliz.

sorvete de rapadura + créme brûlée + Class of '88 Barley Wine

Se você também gosta de harmonizar comida e cerveja, que tal incentivar os estabelecimentos a oferecerem cartas mais extensas e adequadas ao cardápio? Quando for a algum bar ou restaurante e fizer alguma harmonização, seja com cervejas do cardápio ou levadas por você, publique uma foto no Instagram ou Facebook e use também a hashtag #queremosharmonizar, como fizemos aqui.

Para encerrar, algumas sugestões a quem tiver interesse de levar cerveja aos restaurantes: 1) entre em contato com o estabelecimento de antemão. As regras quanto a levar a própria bebida são individuais e vários estabelecimentos mudam a postura de tempos em tempos. Alguns lugares cobram taxa (que pode variar de R$25 a R$100), mas não sabemos ainda como será a aceitação da cerveja nesses casos; 2) não leve cerveja que já faça parte da carta do restaurante, e procure consumir também alguma bebida vendida pelo estabelecimento (nem que seja água); 3) tenha bom senso. O propósito não é “se dar bem”, e sim proporcionar a si mesmo uma experiência plena.

Orval Vert

Roteiro Trapista – Parte IV

Abbaye Notre-Dame d’Orval

Para encerrar a série “Roteiro Trapista”, guardamos o melhor para o final. A visita à Abbaye d’Orval foi certamente um dos pontos mais altos da viagem. Dentre as cervejarias trapistas, a Orval é a que possibilita a visita mais completa, bonita e interessante.

Sala de brassagem
Sala de brassagem

Somente durante dois dias do ano, a Abbaye d’Orval abre as portas de sua cervejaria para visitantes previamente cadastrados no site. No restante do ano, porém, ainda há muito o que visitar em Orval.

Visitamos a abadia em um dos dias de abertura ao público. A fábrica é muito bonita por dentro: tanques de cobre, chão de vidro e vitrais nas paredes dão um ar eclesiástico à sala de brassagem. É possível passear entre os tanques de fermentação horizontais, e cruzar com um monge por lá não é nada incomum. Cenas inusitadas tornam tudo mais interessante. Enquanto ouvíamos explicações sobre os lúpulos utilizados no dry hopping, um casal se aproxima de um funcionário da fábrica e fala algo em seu ouvido. Após uma resposta positiva, a mulher tira uma garrafa de vidro da bolsa. Eis que o funcionário abre o tanque de fermentação, enche a garrafa com o fermento utilizado na Orval e entrega-a para o casal, dizendo: “Não vão fazer uma cerveja melhor que a nossa!”.

Monge passeando pelos fermentadores
Monge passeando pelos fermentadores

O mosteiro atual está localizado em um vale e foi construído em volta da antiga abadia, que foi completamente destruída pelas tropas napoleônicas. Suas ruínas ficam abertas para visita, bem como alguns de seus prédios. A antiga cervejaria virou um pequeno museu, onde vídeos demonstram os processos de produção em uma instalação futurista. O museu da Orval conta ainda com uma coleção de garrafas e taças antigas, além de outras curiosidades.

Museu da Orval
Museu da Orval

A abadia por si só já vale a visita. Os prédios construídos na década de 1920 foram projetados pelo arquiteto Henry Vaes, e o complexo é um dos grandes representantes do estilo art décor da Bélgica. O mesmo arquiteto foi responsável pelo design das garrafas e dos rótulos usados até hoje com pouquíssimas modificações.

O belo e impressionante jardim interno do mosteiro pode ser visto de longe. É fechado e reservado aos monges e àqueles que se hospedam por lá. Na Bélgica, é muito comum hospedar-se nos mosteiros em busca de paz interior, e muitos jovens acabam usando esse retiro para estudar em épocas de provas. Os hóspedes devem seguir o mesmo estilo de vida regrado dos monges.

Abbaye Notre-Dame d’Orval
Abbaye Notre-Dame d’Orval

No subsolo da igreja fica o museu do mosteiro, com peças de metal que os monges produziam em séculos passados. A antiga farmácia também é aberta a visitação, e hoje suas salas foram convertidas em um espaço para exposições. Antes de ir embora, vale passar na lojinha do mosteiro, que vende artigos religiosos, livros, suvenires, cerveja e queijo.

Depois de visitar a abadia, o L’Ange Gardien, café oficial da Orval, é parada obrigatória. O restaurante serve pratos saborosos, além da Orval Vert (ou Petite Orval), a versão da Orval sem a refermentação na garrafa. O resultado é uma cerveja de teor alcoólico menor, dry hopping mais evidente e sem o toque característico do Brettanomyces.

Orval Vert
Orval Vert

Outra coisa muito legal da Orval é que a cervejaria confere um título aos bares que vendem sua cerveja da forma correta. Se, ao entrar em um bar da Bélgica, você vir uma plaquinha com os dizeres “Ambassadeur d’Orval,” pode ter certeza de que vai encontrar Orval na temperatura ideal, servida no copo correto e, mais importante, poderá escolher entre uma garrafa nova ou uma garrafa com pelo menos seis meses de idade, o que tem um impacto tremendo no sabor.

L'Ange Gardien
L’Ange Gardien

A Abbaye d’Orval, além de produzir nossa cerveja trapista preferida, proporcionou-nos um dos dias mais incríveis da nossa viagem. A visita é realmente imperdível.

Mais fotos da nossa visita à Orval aqui.

Degustação mista

Roteiro Trapista – Parte III

Chimay e Rochefort

As cervejarias trapistas da Valônia (parte da Bélgica que fala francês) ficam razoavelmente próximas umas das outras, de forma que é possível visitá-las escolhendo-se uma das cidades como base. Nós, no entanto, optamos por nos hospedar tanto em Chimay quanto em Orval (sobre a qual escreveremos em outro post), passando pelo mosteiro de Rochefort no caminho entre uma e outra.

Abbaye Notre-Dame de Scourmont – Chimay

Visitar a Chimay tem um significado especial para nós, afinal de contas, em 2008, passamos alguns dias da nossa lua de mel no Auberge de Poteaupré, hotel e restaurante da Chimay. Gostamos tanto que voltamos no ano seguinte, ainda que só por uma tarde.

Abbaye Notre-Dame de Scourmont
Abbaye Notre-Dame de Scourmont

De 2009 para cá, muita coisa mudou no Auberge de Poteaupré: além de hotel e restaurante, o estabelecimento agora conta também com o Espace Chimay, um espaço inaugurado em 2011 para contar a história do mosteiro e da produção da cerveja. A antiga lojinha da cervejaria, que antes ficava dentro do restaurante e permanecia fechada boa parte do tempo, agora faz parte do Espace Chimay e está sempre aberta. Em 2008, nenhum dos funcionários do Auberge falava inglês; na nossa última visita, todos falavam.

Espace Chimay
Espace Chimay

Já o hotel, que tem apenas sete quartos, não mudou muito. Todos os quartos são decorados com anúncios antigos e atuais da cervejaria, e o frigobar é abastecido de Chimay. Como o hotel fica na área rural da cidade, a vista de metade dos quartos é a área externa do restaurante, um campo repleto de vacas e o bosque da região.

Restaurante Auberge de Poteaupré
Restaurante do Auberge de Poteaupré

O restaurante serve uma variedade de pratos, a maioria preparada com as cervejas e os queijos produzidos pelos monges. Cada um dos queijos Chimay harmoniza com uma das cervejas, e o restaurante oferece não apenas a popular degustação de cervejas e a tradicional tábua de queijos como também degustações mistas. O cardápio inclui almôndegas ao molho Chimay (de queijo ou cerveja), truta rústica, camarão com molho de tomate gratinado com queijo Chimay e coelho com ameixas na cerveja. Para sobremesa, tiramisù, mousse de chocolate com spéculoos e sabayon. Spéculoos é um biscoito típico da Bélgica, feito com canela, cravo, gengibre, noz moscada e cardamomo. Sabayon é como os belgas chamam a tradicional sobremesa italiana “zabaione”. Na versão belga, porém, é comum utilizar-se cerveja no lugar do vinho. Diversas cervejarias oferecem a sobremesa em seu cardápio.

Degustação mista
Degustação mista

Além das três cervejas tradicionais, há ainda mais uma, encontrada exclusivamente no Auberge de Poteaupré: a Chimay Dorée. Leve e refrescante, é a cerveja produzida para consumo próprio dos monges. As sobras vão para o Auberge e, ocasionalmente, é possível encontrar a Chimay Dorée em lojas especializadas de Bruxelas. Em nossa última visita, tivemos a chance de experimentar também a Chimay 150ème, uma tripel intensamente condimentada, produzida em comemoração aos 150 anos do mosteiro.

Abbaye Notre-Dame de Saint-Rémy – Rochefort

Por mais triste que seja, a verdade é que, do ponto de vista cervejeiro, não há praticamente nada para se fazer em Rochefort. Ocasionalmente, a Abbaye Notre-Dame de Saint Rémy abre sua cervejaria para alguns grupos, geralmente de pessoas ligadas ao mercado cervejeiro. Porém, de forma geral, a cervejaria não é acessível a visitantes. Sabemos que a Rochefort não é a única cervejaria trapista que não permite visitas; a diferença é que todas as outras têm um café oficial onde servem suas cervejas na pressão.

Abbaye Notre-Dame de Saint-Rémy
Abbaye Notre-Dame de Saint-Rémy

Até pouco tempo, a cidade contava com um restaurante que funcionava como café da cervejaria, apesar de servir somente a versão engarrafada das cervejas do mosteiro. Agora, que esse restaurante fechou, a visita a Rochefort se resume a uma pequena área externa e à igreja do mosteiro. Na nossa opinião, não vale a viagem. É preferível visitar alguma outra cervejaria não-trapista ou passar o dia experimentando cervejas em um bom bar.

Mais fotos desse trecho da viagem na nossa página no facebook.

Degustação da Prael

Destinos Cervejeiros em Amsterdã – Parte I

Amsterdã I

Escrevemos um artigo sobre destinos cervejeiros em Amsterdã para a revista Gula do mês passado. Para quem perdeu, estamos publicando o texto original que enviamos para a revista dividido em dois posts, com algumas dicas extras.

Destinos Cervejeiros em Amsterdã

Do ponto de vista cervejeiro, pode-se dizer que a localização da Holanda é estratégica: a leste, está a Alemanha; ao sul, a Bélgica; e a oeste, atravessando-se o Mar do Norte, o Reino Unido. Cercada pelas três escolas cervejeiras tradicionais, a Holanda sofre forte influência de todos os lados. A cerveja mais consumida é uma lager, e em outubro só se toma bock. A única cerveja trapista não belga está em solo holandês. Porters e stouts estão presentes nos portfólios de várias cervejarias locais. Toda essa mistura faz de Amsterdã um grande destino cervejeiro. São inúmeros bares e restaurantes, que oferecem cartas de cervejas e harmonizações interessantes, além de brewpubs e lojas com rótulos do mundo todo.

Gollem
Entrada do Gollem’s Proeflokaal

O Gollem’s Proeflokaal (Overtoom 160-162) é um dos mais famosos bares especializados em cervejas de Amsterdã. Já na década de 1970, foi o primeiro estabelecimento da cidade a comercializar cervejas belgas e de outros países. O bar original está fechado atualmente, mas as atividades continuam no Proeflokaal, que fica perto da praça dos museus. Além de 22 cervejas diferentes na pressão, o bar conta com um cardápio completo, que inclui fondue de queijos trapistas e o “gigantesco hambúrguer flamengo”, além de pratos da culinária belga.

Beer Temple
Entrada do Beer Temple

O Beer Temple (Nieuwezijds Voorburgwal 250) é um bar dedicado a cervejas da escola americana, contando com 30 rótulos diferentes na pressão e dezenas de garrafas de cervejarias como Left Hand, Southern Tier, Flying Dog, BrewDog e Mikkeller. O bar ainda oferece uma American Pale Ale da casa, a Tempelbier, que não economiza nos lúpulos americanos. Para acompanhar a cerveja, a tábua de queijo trapista é uma boa (e a única) pedida.

Arendsnest
Arendsnest

Do mesmo dono do Beer Temple, mas focado em cervejarias locais, o Arendsnest (Herengracht 90) disponibiliza 30 cervejas holandesas na pressão e mais de 300 em garrafa. Cervejarias como Jopen, De Molen, Christoffel e La Trappe marcam presença, ao lado de microcervejarias de todo o país. Há ainda diversas cervejas sazonais, além de algumas safradas.

Lieve
Lieve

Depois de beber no Arendsnest, a dica é jantar no restaurante ao lado, o Lieve (Herengracht 88), especializado em comida belga e harmonizações. São três tipos de menu disponíveis: o Huiskamer serve um jantar tradicional à la carte, com entrada, prato principal e sobremesa; o Gastronomisch, mais extenso, inclui entrada, sopa, primeiro prato, segundo prato e sobremesa; e o Belgisch Barok, o mais interessante para quem vai ao restaurante acompanhado, possibilita experimentar múltiplas entradas, pratos principais e sobremesas, que são compartilhados por todos que dividem a mesa. Para quem procura a experiência completa, há ainda a opção de harmonizar cada prato com uma cerveja escolhida pelo chef. A panna cotta de cenoura com toque de gengibre, por exemplo, é servida com Hoegaarden Grand Cru, enquanto o tiramisù de cerveja com pêssego é acompanhado da Barbãr, que leva mel na composição.

Prael
Prael

Se a ideia for visitar um brewpub, o Prael (Oudezijds Armsteeg 26) é uma opção interessante. Com cervejas batizadas com nomes de cantores holandeses, a cervejaria passeia por várias escolas e faz diversas experiências. Tripel, Kölsch, bock, stout e IPA estão entre alguns dos estilos disponíveis. A cervejaria produz diferentes cervejas dentro do mesmo estilo e costuma criar edições especiais de sua carta regular, como a Andre Onder De Zoden, uma versão da bock da casa feita com malte defumado. As cervejas engarrafadas são vendidas na loja da cervejaria (Oudezijds Voorburgwal 30 – basta dobrar a esquina), de onde partem visitas guiadas que incluem degustação.

Degustação Prael
Degustação da Prael

Mais fotos na nossa página no facebook.

No próximo post, mais dicas de destinos cervejeiros em Amsterdã.

Cozinha da La Trappe

Roteiro Trapista – Parte II

La Trappe, Westmalle e Achel

Para visitar a La Trappe, na Holanda, assim como a Westmalle e a Achel, na parte flamenga da Bélgica, escolhemos a Antuérpia como base. De lá até nossos destinos, a viagem de carro leva entre meia hora e uma hora e meia.

Onze Lieve Vrouw van Koningshoeven – La Trappe

Única holandesa da turma, a cervejaria fica na cidade de Tilburg, perto da fronteira com a Bélgica. É de longe a trapista com visão comercial mais avançada. Em 1999, a Bierbrouwerij de Koningshoeven havia se tornado tão comercial que chegou a perder o selo trapista durante alguns anos, por não se adequar às regras da Associação Internacional Trapista. Em 2005, a cervejaria recuperou o direito de usar o selo.

Mosteiro da La Trappe

O mosteiro de Koningshoeven foi fundado em 1881 por monges vindos da França, do mosteiro de Mont des Cats. Naquela época, as leis francesas contra a Igreja Católica se tornaram uma ameaça aos mosteiros. Temendo por sua situação, os monges decidiram comprar terras na Holanda e construir um mosteiro temporário como refúgio. O plano era se sustentar com o que plantassem e produzissem. O terreno, no entanto, não era bom para o plantio, e os monges logo tiveram que arrumar outra fonte de renda. Foi aí que resolveram produzir cerveja, em 1884.

Cozinha La Trappe
Cozinha da La Trappe

Já no século XX, durante o período de 1969 a 1980 (antes da existência do selo trapista), o mosteiro de Koningshoeven firmou um contrato com a Stella Artois, para a produção de suas cervejas, todas lagers. Em 1980, o mosteiro retomou as atividades cervejeiras e passou a produzir uma ale, batizando-a de La Trappe. Seu portfólio foi crescendo continuamente e, hoje, a Koningshoeven é a cervejaria trapista mais prolífica, com 10 rótulos diferentes, além das variações dos lotes da Oak Aged. Pouca gente sabe, mas a Koningshoeven ainda produz receitas para outras cervejarias, como a Tilburg’s Dutch Brown Ale e as Urthel, porém sem seguir os preceitos para a fabricação de produtos trapistas.

A Koningshoeven é a única trapista que oferece regularmente visitas guiadas à cervejaria, com direito a degustação. As visitas são conduzidas em inglês ou holandês, dependendo do grupo. Caso não seja possível agendar uma visita no seu idioma preferido, o visitante recebe um panfleto contando a história da abadia e da cervejaria, para não se perder durante as explicações.

Café da La Trappe

O café da La Trappe é moderno e muito agradável. O cardápio é variado e inclui hambúrgueres, massas e sobremesas. Com exceção da Oak Aged, o café oferece todas as La Trappe na pressão. Com tanta cerveja e um ambiente tão divertido, é possível ficar horas por lá sem ver o tempo passar.

Para terminar, uma loja dentro do mosteiro oferece, além das cervejas lá produzidas, diversos produtos religiosos, doces, chocolates e souvenires da marca La Trappe.

Loja da La Trappe

Onze-Lieve-Vrouw van het Heilig Hart – Westmalle

Dentre as cervejarias trapistas, a Westmalle é uma das mais antigas, fabricando cerveja ininterruptamente desde 1836. Sua tripel, em produção desde 1934, é considerada uma das precursoras do estilo. A Westmalle é uma das poucas cervejarias trapistas que faz uso de lúpulos em flor, além de ser responsável por isolar uma cepa de levedura utilizada não apenas lá, mas também na Achel e na Westvleteren. Irmão Thomas, que até o ano de 1998 era seu mestre-cervejeiro, é um dos mais influentes monges cervejeiros entre os trapistas e, mesmo depois de aposentado, ajudou a implantar a cervejaria do mosteiro de Achel.

Café Trappisten

Quase em frente ao mosteiro, no mesmo lugar em que ficava o antigo Café Trappisten, foi construído um novo café mais moderno. O interessante é que preservaram a parede com a antiga entrada, que agora leva a um jardim. O estabelecimento serve as duas cervejas produzidas comercialmente no mosteiro (dubbel e tripel) e, ocasionalmente, uma terceira, a Westmalle Extra, produzida originalmente para consumo dos monges. O Café Trappisten é um dos poucos lugares em que é possível encontrar a Westmalle Dubbel na pressão.

Café Trappisten

No balcão do café, é possível comprar produtos trapistas de outros mosteiros, como vinhos, compotas e sabonetes. A comida do café é elegante e de qualidade. Os pratos incluem massas com queijos trapistas e receitas tradicionais belgas, como Carbonnade Flamande, feita com Westmalle Dubbel. A sobremesa? Sorvete com calda de passas e Westmalle Tripel.

Carbonnade Flamande do Café Trappisten

Achelse Kluis – Achel

A Achel era a mais nova cervejaria trapista, até a chegada da Gregorius (do mosteiro de Engelszell). Apesar de seu histórico cervejeiro no século XIX, a Achel não produzia cerveja desde o fim da Primeira Guerra, quando sua planta foi desmantelada pelos alemães, com o intuito de reutilizar o metal para fins bélicos. Em 1997, os monges resolveram retomar suas atividades cervejeiras e chamaram justamente o Irmão Thomas, que havia acabado de se aposentar como mestre-cervejeiro da Westmalle.

Fronteira entre Bélgica e Holanda e mosteiro de Achel ao fundo

O mosteiro da Achel fica quase na Holanda. Na verdade, parte do prédio do mosteiro está em solo holandês, e uma linha pintada no estacionamento indica a fronteira entre os dois países. O café da Achel fica dentro do mosteiro, separado da cervejaria por uma parede de vidro. O cardápio é simples, limitando-se a sopas e sanduíches típicos das friteries belgas. A sobremesa, adivinha! Sorvete feito com cerveja!

Café da Achel

O cliente faz o pedido diretamente no balcão e leva sua bandeja para a mesa, podendo se acomodar na parte interna do café ou nas mesas externas espalhadas pelo pátio do mosteiro. Além de vender suas duas cervejas tradicionais em garrafas de 330 ml (Achel 8° Blond e Achel 8° Bruin), o café oferece com exclusividade as versões mais leves, Achel 5° Blond e Achel 5° Bruin, na pressão.

Mesas externas do café da Achel

A cervejaria produz ainda versões mais fortes das mesmas cervejas (Achel Extra Blond e Achel Extra Bruin), com 9,5% de álcool, comercializadas em garrafas de 750 ml. A Extra Blond é vendida exclusivamente na “lojinha” do mosteiro, que abre apenas aos sábados e funciona, na verdade, como mercadinho da região. Além de artigos variados, a loja oferece uma infinidade de cervejas belgas. O preço das trapistas é mais convidativo que em qualquer outro lugar, incluindo-se as lojas das próprias cervejarias. Além disso, em setembro, o mercado da Achel foi o único lugar da Bélgica em que encontramos a Gregorius, a nova trapista austríaca. Mas disso a gente fala no próximo post…

Mais fotos desse trecho da viagem aqui.

Westvleteren 12

Roteiro Trapista – Parte I

Mont des Cats, St. Bernardus e Westvleteren

As seis cervejarias trapistas belgas são bem democráticas: metade está na parte francesa e metade está na parte flamenga do país. Para visitar a Westvleteren, escolhemos ficar em Watou, aproveitando para visitar também a Abadia de Mont des Cats e a cervejaria St. Bernardus, já que as três estão historicamente interligadas. Por esse motivo, decidimos falar da Mont des Cats e St. Bernardus neste post, ainda que as duas não sejam cervejarias trapistas.

Watou fica na região de Poperinge, principal região produtora de lúpulo da Bélgica. A cidade fica praticamente no meio do caminho entre Mont des Cats e Westvleteren, e a distância pode ser facilmente percorrida de bicicleta. As estradinhas da região ficam repletas de ciclistas locais e turistas, muitos deles pedalando em direção ao famoso Café In de Vrede, em meio a fazendas e plantações de lúpulo.

Mont des Cats

Basta atravessar a fronteira com a França e chega-se facilmente à Abadia Mont des Cats. A abadia, que desde o século retrasado produz queijo e também já produziu cervejas, resolveu reviver a tradição. Os irmãos da Notre Dame de Scourmont (Chimay) acabaram dando uma mãozinha e são eles que fabricam a cerveja Mont des Cats, que, como não é produzida na abadia de Mont des Cats, não pode receber o selo trapista.

Mont des Cats

Em frente à abadia, fica o Auberge du Mont des Cats. Com um restaurante e uma lojinha de produtos trapistas, é o único lugar oficial para se provar a Mont des Cats. O restaurante ainda serve pratos como frango na cerveja e sanduíches. A lojinha vende também os queijos produzidos pelos monges, que estão entre os melhores da França.

Auberge du Mont des Cats

Foi da abadia de Mont des Cats que saíram monges fundadores de vários mosteiros da Europa, entre eles o de Koningshoeven (produtor da La Trappe) e de Sint Sixtus (Westvleteren).

St. Bernardus

No século XIX, as leis francesas tornaram-se mais severas em relação a instituições religiosas, de forma que os monges da Mont des Cats começaram a procurar terras fora da França para tocar seus negócios. Uma de suas primeiras medidas foi se instalar em uma fazenda na região de Watou e batizá-la de Refuge Notre Dame de Saint Bernard, onde passaram a produzir queijo – uma de suas fontes de renda. Na década de 1930, a Mont des Cats voltou a produzir queijo em seu mosteiro, encerrando o contrato com a Sint Bernardus, que continuou suas atividades como queijaria.

Em 1946, a Sint Bernardus foi contratada pela abadia de Sint Sixtus para fabricar suas cervejas em larga escala. Em 1992, a Sint Sixtus resolveu não renovar o contrato, uma vez que se iniciavam as negociações referentes ao uso do termo “trapista”. Em 1997, com a criação da Associação Internacional Trapista, o selo trapista foi oficializado.

Plantações de lúpulo da St. Bernardus

A fábrica da St. Bernardus ainda utiliza os mesmo tanques desde que iniciou sua produção para a Sint Sixtus. Até hoje, a St. Bernardus produz sua Prior 12 com a mesma receita que utilizava para fabricar a Sint Sixtus 12. O curioso é que a St. Bernardus ainda utiliza a levedura original da Westvleteren, enquanto a abadia de Sint Sixtus hoje utiliza levedura da Westmalle.

Hoje, além de produzir cerveja, a St. Bernardus oferece também hospedagem: a Brouwershuis. Como o próprio nome indica, trata-se da casa onde vivia o antigo mestre-cervejeiro. O Bed & Breakfast, vizinho à cervejaria, conta com oito quartos e uma área comum, onde os hóspedes podem abrir as geladeiras e se servir dos sete rótulos da marca. O preço da cerveja? Você decide quanto quer pagar.

Geladeiras self-service na Brouwershuis

A visita à St. Bernardus custa 12,50 euros e dá direito a degustação de dois rótulos, além de um kit com quatro garrafas e uma taça. Da sala de degustação, pode-se ver o Mont des Cats, onde fica a abadia. Estrategicamente localizada ao lado da cervejaria, está a plantação de lúpulo da St. Bernardus, que fica mais interessante entre os meses de agosto e outubro, quando está pronta para a colheita.

Sint Sixtus – Westvleteren
Entrada do In de Vrede

Entre as cervejas belgas mais desejadas e procuradas pelos aficionados estão as produzidas pela Abadia de Sint Sixtus, em Westvleteren. Suas garrafas sem rótulos são identificadas somente pelas cores das tampinhas: a verde é a Blond, uma cerveja de alta fermentação surpreendentemente lupulada para uma blond belga, fazendo jus à região; a azul é a 8, uma ale belga escura com 8% de abv; e a amarela, a grande estrela, é a 12, uma ale belga escura com 10,2% de álcool.

Westvleteren 12

Constantemente consideradas as melhores cervejas do mundo, levam milhares de turistas cervejeiros ao café In de Vrede, localizado em frente ao mosteiro de Sint Sixtus. O In de Vrede é o único estabelecimento que tem autorização para vender as cervejas Westvleteren. Há ainda um sistema de encomenda por telefone (sem delivery, que fique claro – o cliente busca a encomenda no mosteiro), mas a possibilidade de conseguir as cervejas dessa forma é remota. Melhor ir até o In de Vrede, que, além de servir as cervejas, esporadicamente vende six-packs ou kits em sua lojinha, onde também é possível comprar queijos trapistas de outras abadias e camisetas do café.

Sorvete de Westvleteren 12

Quem tem a sorte de visitar o In de Vrede na hora certa pode adquirir uma quantidade limitada dos produtos (o lado bom é que os vendedores deixam claro que não são lá muito atentos à fisionomia dos clientes), com o compromisso de não os vender (o que é alegremente ignorado em toda a Bélgica e Holanda, e até por aqui). O café também serve porções de queijos trapistas, sanduíches e saladas. Para a sobremesa, o sorvete feito com Westvleteren 12 é um dos mais pedidos.

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