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sorvete de rapadura + créme brûlée + Class of '88 Barley Wine

Queremos harmonizar!

Quando vamos aos nossos restaurantes preferidos, é comum passarmos um bom tempo conversando sobre os pratos e fantasiando sobre as harmonizações que gostaríamos de fazer com eles. Às vezes, o inverso também ocorre: compramos alguma cerveja incrível e, ao bebê-la em casa, de pijama, no sofá, ficamos imaginando o quanto a experiência poderia ser ainda mais fantástica se a cerveja fosse acompanhada de um prato à altura. Sentíamos que estávamos fadados a usufruir das coisas de que mais gostamos, cerveja e gastronomia, em momentos separados. Para agravar mais um pouco a situação, “harmonização” é um dos assuntos cervejeiros que mais nos interessam. Pesquisamos bastante sobre isso e, sempre que possível, fazemos testes com pratos simples que preparamos, além de queijos e doces que trazemos para casa. Mas nada disso aplacava nossa vontade de harmonizar determinadas cervejas com pratos elaborados com o mesmo nível de excelência. Foi então que resolvemos finalmente colocar um certo “projeto” em prática. Pesquisamos alguns restaurantes que não cobram taxa de rolha e decidimos levar cervejas para testar nossas harmonizações dos sonhos. Para começar, escolhemos o restaurante de culinária sertaneja Mocotó.

dadinhos de tapioca + queijo coalho + Colorado Indica

A especialidade do Mocotó, além de comida nordestina, é cachaça. Mas, se assim como nós, seu negócio é mesmo cerveja, o Mocotó também oferece algumas opções. A Colorado Indica é, sem dúvida, a melhor delas, especialmente levando-se em conta o cardápio do restaurante. Para “abrir o apetite”, pedimos queijo-de-coalho dourado na manteiga de garrafa com melado, dadinhos de tapioca com molho de pimenta agridoce, além de uma porção de torresmo, que não saiu na foto porque só chegou depois e, bom, meu autocontrole foi 100% utilizado na espera por essa foto. A Colorado Indica é uma IPA com teor alcoólico de 7% e rapadura em sua composição. Quer dizer, como se não bastasse o malte tostado se fundir ao queimadinho do queijo, há ainda a rapadura, presente no melado e na cerveja (ok, a rapadura não é exatamente perceptível na Indica, mas a cerveja é deliciosamente adocicada, ainda que amarga). O dadinho de tapioca vem acompanhado de molho de pimenta. Precisa falar mais alguma coisa? Talvez precise, porque há quem diga que não se deve harmonizar pimenta com IPA, porque o lúpulo (e o álcool) intensificam a “picância”. Mas, se eu não gostasse de comida picante, não pediria pratos condimentados, né? É claro que deu certo. A Indica também acompanhou muito bem o torresmo. Além da semelhança do perfil tostado entre prato e cerveja, o teor alcoólico intermediário da Indica é ideal para atravessar a gordura do torresmo, sem impedir os grandes goles que um petisco salgado como esse pede. carpaccio de carne de sol com tomate-cervea e pimenta biquinho + pães deliciosos

Na sequência, pedimos carpaccio de carne-de-sol com pesto de coentro, tomate-cereja e pimenta biquinho (já experimentaram comer tomate-cereja e pimenta biquinho ao mesmo tempo, numa garfada só? Como é bom!) e tapioca de carne-seca com requeijão do norte e crocante de mandioquinha. Infelizmente não tiramos foto que preste da tapioca, mas não há uma vez que eu vá ao Mocotó e esse prato fique de fora da orgia gastronômica.

Chegou a hora da sobremesa. No caso do Mocotó, eram justamente as sobremesas que, a cada visita, faziam-nos divagar sobre possíveis harmonizações. O créme brûlée com doce de leite e umburana e o sorvete de rapadura foram nossas inspirações na escolha da cerveja que levamos ao restaurante. A Class of  ’88 Barley Wine, da North Coast Brewing Company, é uma cerveja comemorativa dos 25 anos de três cervejarias: Rogue, Deschutes e North Coast. Cada cervejaria criou uma receita de barley wine, com base no livro The Essentials of Beer Style, de Fred Eckhardt, lançado também em 1988, mesmo ano em que as três cervejarias foram fundadas. Além disso, os cervejeiros das três cervejarias participaram, juntos, das três brassagens.

Mas vamos à harmonização. A Class of ’88 da North Coast é uma American barley wine lupulada, com 10% de teor alcoólico, perfil caramelado e frutado típico do estilo, além de notas resinosas e terrosas provenientes dos lúpulos. Quando pensamos em harmonizar a Class of ’88 com o créme brûlée, nosso foco era o óbvio: cerveja com características carameladas e tostadas com uma sobremesa cuja marca registrada é uma crosta caramelizada e queimadinha. Eis que fomos surpreendidos por um elemento inesperado: a cerveja não só harmonizou por semelhança com o doce de leite e a crosta do créme brûlée, como também realçou deliciosamente a umburana utilizada na sobremesa! Talvez tenham sido as notas resinosas do lúpulo, talvez o adocicado do malte – que, assim como a umburana, pode lembrar baunilha -, mas o fato é que a combinação trouxe novas percepções, tanto para a cerveja quanto para a sobremesa. A Class of ’88 também deu muito certo com o sorvete. O teor alcoólico e a textura licorosa da cerveja são suficientemente potentes para a gordura e doçura da massa, mas o ponto alto mesmo foi o contraste da cerveja com os pedaços de rapadura, que têm um toque azedinho delicioso! Ai, ai, comida e cerveja realmente me fazem feliz.

sorvete de rapadura + créme brûlée + Class of '88 Barley Wine

Se você também gosta de harmonizar comida e cerveja, que tal incentivar os estabelecimentos a oferecerem cartas mais extensas e adequadas ao cardápio? Quando for a algum bar ou restaurante e fizer alguma harmonização, seja com cervejas do cardápio ou levadas por você, publique uma foto no Instagram ou Facebook e use também a hashtag #queremosharmonizar, como fizemos aqui.

Para encerrar, algumas sugestões a quem tiver interesse de levar cerveja aos restaurantes: 1) entre em contato com o estabelecimento de antemão. As regras quanto a levar a própria bebida são individuais e vários estabelecimentos mudam a postura de tempos em tempos. Alguns lugares cobram taxa (que pode variar de R$25 a R$100), mas não sabemos ainda como será a aceitação da cerveja nesses casos; 2) não leve cerveja que já faça parte da carta do restaurante, e procure consumir também alguma bebida vendida pelo estabelecimento (nem que seja água); 3) tenha bom senso. O propósito não é “se dar bem”, e sim proporcionar a si mesmo uma experiência plena.

Paleta de degustação

Les 3 Brasseurs

Les 3 Brasseurs - exterior

Já que o bar da BrewDog foi inaugurado em São Paulo esta semana, decidimos que este seria o melhor momento para publicarmos nosso post sobre a primeira filial brasileira da rede de brewpubs francesa Les 3 Brasseurs. Se você não tem ânimo para ficar um tempão na fila e disputar lugar no balcão do bar mais aguardado da história, a alternativa é aproveitar para conhecer a antiga novidade cervejeira de São Paulo, inaugurada no final de novembro.

Visitamos a Les 3 Brasseurs em duas ocasiões diferentes, ambas no início de dezembro. O lugar é legal, mas não deixa de ter um clima de restaurante de rede. A decoração segue o padrão das outras filiais pelo mundo. A cozinha da cervejaria fica logo na entrada da casa, separada por um vidro. Cada brassagem produz até 1000 litros, e as chopeiras são ligadas diretamente aos tanques, no segundo andar da casa. O preço das cervejas varia de R$6,50 a R$10 (copo de 300 ml), e são servidos também em canecas de 500 ml (de R$11 a R$16), 1 litro e até em chopeiras de 3 ou 5 litros levadas à mesa.  Também é possível optar pela paleta de degustação (R$17).

Paleta de degustação

Quatro cervejas são produzidas regularmente pelo brewpub, seguindo as receitas originais da matriz, com pequenas adaptações para agradar o paladar brasileiro. Em outras palavras, são um pouco menos amargas que as versões gringas. A Blonde, apesar de ser descrita pelos garçons como pilsen, é uma ale. Tem 4,7% de teor alcoólico, 22 IBU (unidade de amargor), e é servida de duas maneiras diferentes: caldereta de 250 ml (com o nome de Chopp 250) ou taça de 300 ml, curiosamente com o mesmo preço. A Blanche é uma witbier, com toques cítricos e leve acidez, melhor que a maioria das cervejas do estilo produzidas no Brasil. A Ambrée é uma pale ale, com um toque interessante de açúcar queimado, caramelo e frutado leve, mas falta personalidade. A Itaim é receita exclusiva do Brasil. Trata-se de uma pale ale produzida com três técnicas de lupulagem e lúpulo Cascade. Ainda assim, a lupulagem ainda nos pareceu muito discreta e, nos dois dias em que visitamos o bar, a Itaim apresentava um aroma desagradável de enxofre. Além das quatro cervejas de linha, a promessa é produzir sazonais de tempos em tempos, possivelmente mais interessantes para o público cervejeiro.

Les 3 Brasseurs - interior

Enquanto visitávamos a cozinha, os tanques de maturação, o laboratório e o depósito de maltes da cervejaria, Tom nos contou um pouco sobre como começou a trabalhar com cerveja. Cervejeiro caseiro daqui de São Paulo, Tom morou na Alemanha de 2006 a 2012. Lá, acabou fazendo o curso de cervejeiro e, quando voltou ao Brasil, foi contratado para implantar a primeira loja da rede Les 3 Brasseurs por aqui. Ficamos sabendo, também, que a rede se preocupa em difundir a cultura cervejeira e uma das iniciativas que fazem nesse sentido é promover um concurso internacional de cerveja, em que cervejeiros caseiros podem inscrever suas cervejas em cada uma das filiais, e a escolhida em cada casa segue para um concurso internacional. As cervejas ganhadoras em cada filial são produzidas como sazonais locais.

Les 3 Brasseurs - Tom Silva

O cardápio é extenso e se espelha no cardápio padrão da rede. Uma das novidades para as mesas brasileiras são as flammes, um intermediário entre pizza e crepe, com recheios variados. Pratos com inspiração francesa e belga também fazem parte do cardápio. Aos sábados, há buffet de cassoulet, a versão francesa da feijoada. Na primeira das nossas visitas, experimentamos apenas Carbonnade Flamande, o hambúrger Especial 3B e a flamme São Paulo, com queijo branco, peito de frango, pimentão grelhado, molho barbecue, feijões vermelhos, linguiça defumada e tabasco.

Especial 3B
Especial 3B

Para terminar, cabe aqui uma comparação com o único outro brewpub de São Paulo, a Cervejaria Nacional, nossa segunda casa. É bom lembrar que, há quase três anos, quando a Nacional abriu, as cervejas ainda não chegavam perto do que são atualmente. É necessário tempo para que as coisas se acertem. Mesmo hoje, nem todas as cervejas da Nacional são empolgantes. Algumas são bem contidas, e possivelmente se destinam a um público que busca apenas tomar alguma coisa diferente, assim como as cervejas de linha da 3 Brasseurs. Ainda assim, pretendemos voltar ao bar ocasionalmente, na expectativa de algo que nos surpreenda.

IPA Day 01

Retrospectiva 2013 – Festivais Cervejeiros no Brasil

No início do ano, acabamos perdendo o Festival Brasileiro da Cerveja, em Blumenau. Foi por um ótimo motivo, mas, depois disso, decidimos que, durante este ano, viajaríamos pelo Brasil para conferir o maior número possível de festivais cervejeiros. Como não escrevemos sobre todos eles, decidimos fazer uma retrospectiva, agora que o ano acabou. Avaliamos fatores como preço da entrada, preço das cervejas, variedade de rótulos, novidades, serviço (comida, água, banheiros, etc.) e outras atrações.

IPA Day 01
KombIPA, a Kombi da Bodebrown presente na maioria dos festivais. Na foto, IPA Day Brasil.

Brasil Brau/Degusta Beer, junho, São Paulo

Ingresso: R$40 para um dia, R$70 para dois dias e R$90 para três dias. Cervejas pagas à parte.

A Brasil Brau era, a princípio, uma feira voltada aos produtores de cerveja. Com o crescente interesse dos consumidores que não trabalham necessariamente com cerveja, criou-se um evento paralelo, o Degusta Beer.

Foram apresentados alguns lançamentos no evento, como The White IPA e Matanza IPA, da Dortmund. A importadora Bier & Wein apresentou pela primeira vez as cervejas americanas que foram incorporadas ao seu portfólio e servia copos de degustação por R$2. A importadora Tarantino trouxe uma série de cervejas americanas que não entraram no seu portfólio, mas serviram como uma vitrine para cervejarias americanas conhecerem o mercado brasileiro. Infelizmente essas cervejas estavam bem caras e sem possibilidade de degustação. A importadora Lorch apresentou as cervejas japonesas Hitachino Nest, vendidas por dose ou garrafa.

A praça de alimentação era bem limitada, mas havia vários pontos com galões de água para beber e lavar os copos.  Aconteceu também um ciclo de palestras e mesas redondas.

A feira aconteceu no Espaço Transamérica, que é afastado do centro da cidade e tem transporte público dificultado. Sem estação de metrô por perto, quem optou por usar a CPTM sofreu com os trens lotados. O estacionamento no local era muito caro e a fila de táxi ficava bem demorada no fim do dia.

Infelizmente não conseguimos, até agora, encontrar nossas fotos do Degusta Beer

IPA Day Brasil, agosto, Ribeirão Preto

Ingresso: a partir de R$90 (primeiro lote). Cerveja à vontade inclusa no ingresso.

Certamente o festival de que mais gostamos, tanto que dedicamos um post só a ele. Em fevereiro acontecerá em São Paulo o festival A Pint With the Queen, dos mesmos criadores do IPA Day Brasil. Nossos ingressos já estão comprados.

IPA Day Brasil 02
IPA Day Brasil

Minas Mixbeer, início de setembro, Belo Horizonte

Ingresso: R$20 por dia. Cervejas pagas à parte.

Apesar de ser um dos principais estados produtores e fomentadores das cervejas artesanais, o Minas Mixbeer ainda atraiu pouca gente de fora. Apesar disso, algumas distribuidoras presentes ofereceram novidades, caso das curitibanas Morada e Dum (que só foram chegar em São Paulo alguns meses depois). A Bier & Wein novamente vendia suas cervejas em doses e garrafas e deu para conhecer praticamente todo o portfólio da importadora, sem ficar pobre ou bêbado demais. As cervejarias mineiras estavam presentes, o que nos possibilitou experimentar as cervejas da Inconfidentes e degustar a Petroleum da Dum e da Wäls lado a lado.

Havia boas opções de comida a preços variados. Restaurantes com tradição cervejeira, como Rima dos Sabores e Stadt Jever, ofereciam seus pratos preparados ali mesmo. Paralelamente ao festival, aconteceu um congresso voltado a quem trabalha com cerveja, assim como algumas palestras abertas ao público.

Durante o dia, o dj tocou só músicas em vinil, passeando por diversos estilos, mas basicamente rock. Aconteceram shows de bandas cover de rock e blues.

Minas Mixbeer
Minas Mixbeer

Beer Experience, final de setembro, São Paulo

Ingresso: na área comum, a partir de R$40 para sexta e domingo e R$50 para sábado (se comprados com um mês de antecedência) + taxa de inconveniência (tentamos comprar em ponto de venda, mas o sistema não funcionava). Na área VIP da Cervejaria Karavelle, R$150 para sexta e domingo e R$180 para sábado.

O Beer Experience foi crescendo a cada edição, e resolveu crescer mais ainda na edição de 2013. O festival ocorreria, inicialmente, em quatro cidades diferentes: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília. Ainda no início da divulgação, a edição de BH foi cancelada. O mesmo aconteceu com a edição de Brasília, com o agravante de que o cancelamento se deu poucos dias antes da data do evento. A edição de São Paulo e do Rio foram inundadas de críticas.

O festival aconteceu na Bienal, no Parque do Ibirapuera. A localização é central em São Paulo e muitas linhas de ônibus passam por ali, então chegar não foi um grande problema. A organização garantiu que haveria táxis na saída, mas isso não aconteceu no primeiro dia de festival, e voltar para casa foi uma luta.

Beer Experience 01
Fila de entrada infinita para o Beer Experience.

Este ano, o foco do Beer Experience deixou de ser a cerveja e passou a ser as atrações musicais, o que deixou o evento com mais cara de balada que de festival cervejeiro (incluindo-se o preço abusivo das cervejas, comidas e água – garrafinha a R$4!). O único estande com preços melhores que os de bares e lojas era o da importadora Best Beers. Poucas novidades foram apresentadas no festival, e algumas delas – como a 1000 IBU da Cervejaria Invicta e os chopes da Brooklyn – já estavam disponíveis no Empório Alto dos Pinheiros no início da semana do festival.

As atrações musicais foram de peso (ainda que não de nossa preferência), mas o som não ajudou. A Bienal definitivamente não é um lugar com boa acústica, e o som ficava todo embolado. Isso aconteceu com o show do Matanza, que é uma banda bem pesada e barulhenta, e aconteceu com os Demônios da Garoa, banda bem mais tranquila. Não comparecemos ao show do Seu Jorge, no sábado, mas, pelo que lemos, foi o dia mais caótico em todos os aspectos, especialmente para quem pagou caro pela área VIP.

Eram poucas as opções de comida e as filas eram demoradas. Não havia lugar pra sentar e a maioria das pessoas comia em pé ou sentada no chão. Os banheiros da Bienal ficaram restritos à área VIP e, para o público geral, havia apenas banheiros químicos, que não foram limpos ou abastecidos durante toda a noite. Para completar, não havia sequer onde lavar a mão, que dirá os copos. Não havia água nas torneiras improvisadas.

Beer Experience 02
Beer Experience

Pelo menos quatro caixas diferentes nos disseram que as fichas de cerveja seriam iguais todos os dias, incentivando-nos (e a outros amigos nossos) a comprá-las para os dias seguintes, para evitar filas. Claramente haviam sido instruídos a proceder dessa forma. Porém, no sábado, ficamos sabendo que as fichas não seriam aceitas. Decidimos que, no domingo, só entraríamos no festival se pudéssemos utilizar nossas fichas. Depois de muita enrolação e discussão, quando estávamos indo embora do Parque do Ibirapuera, um segurança nos ofereceu a pulseira da área VIP como compensação pela pilantragem da organização do evento. Aceitamos, depois que ele nos explicou que não precisaríamos pagar mais pela pulseira e que a circulação entre os espaços era livre. Pelo menos teríamos água à vontade e banheiro decente.

No domingo, havia lugar para sentar na área VIP, mas a comida consistia em um pratinho de plástico com salgados daqueles que se compram na padaria da esquina para festa surpresa da firma. Claro, a cerveja era liberada no camarote, mas era Karavelle (ótimo para quem gosta ou não se importa, mas nós fomos conhecer o novo bar da cervejaria uma semana antes do festival e havíamos considerado apenas a “stout de baixa fermentação” bebível). Ficamos mais na área comum do que no camarote (melhor pagar por cerveja boa do que tomar cerveja ruim de graça), e fomos surpreendidos quando, começado o show dos Demônios da Garoa, a organização resolveu alterar ilegitimamente a regra da livre circulação: ninguém mais poderia beber água ou Karavelle do lado de fora da área VIP, assistindo ao show com os amigos. Para fazer valer a mudança absurda, a equipe de segurança se mostrou disposta a agredir fisicamente os consumidores que não aceitaram a violação de seus direitos. Resumindo: o pior festival “cervejeiro” de todos os tempos.

WikiBier Festival, outubro, Curitiba

Ingresso: A partir de R$22 (primeiro lote).

O WikiBier Festival aconteceu em um grande centro de convenções, no Parque Barigui. O parque é bem bonito, mas o acesso era um pouco limitado por transporte público. O centro de convenções era realmente grande e em hora nenhuma pareceu estar muito cheio, apesar das 4000 pessoas que passaram por lá.

WikiBier Festival 01
Parque Barigui

O evento prometeu uma série de cervejas americanas exclusivas. Como anunciaram que as quantidades seriam limitadas, resolvemos chegar no horário de abertura do festival (11h). Acontece que, na noite anterior, aproveitamos nossa estada em Curitiba para encontrar amigos, o que obviamente incluiu bastante cerveja madrugada adentro. Por sorte, não conseguimos acordar cedo o suficiente para chegar ao WikiBier às 11h da manhã.

Às 13h, quando chegamos, a maioria dos estandes ainda não conseguia servir suas cervejas na pressão. Poucos barris estavam engatados e muitas cervejas só começaram a ser servidas no final da tarde. As cervejas americanas trazidas exclusivamente para o festival foram engatadas aos poucos e custavam R$25 o copo de 200 ml, ou seja, R$125 o litro. Mesmo assim, as torneiras trabalharam durante todo o festival. Porém, pelo menos uma das cervejas americanas anunciadas não foi servida. O atendente tentou nos convencer de que acabou, mas havíamos passado no estande 15 minutos antes e o mesmo atendente havia nos dito que o barril ainda não tinha sido engatado.

WikiBier Festival 02
WikiBier Festival

Na entrada, um guia impresso era distribuído, com todas as cervejas disponíveis, divididas por cervejarias. Esse tipo de coisa é essencial em festivais grandes, e o WikiBier ganha pontos por ter se lembrado disso. Porém, as informações contidas no guia eram incompletas. Muitas das cervejas estavam apenas mencionadas, praticamente sem nenhuma descrição. Além disso, era difícil encontrar em qual estande cada cerveja era vendida. Um mapinha simples teria ajudado muito.

Mas 4000 pessoas precisam se alimentar e, mais uma vez, a alimentação foi uma das dificuldades. Poucas opções e muitas filas. Pelo menos a água era vendida a R$1.

Apresentaram-se bandas de vários estilos, tocando covers. Rolou samba, choro, rock e uma versão que misturava “Behind Blue Eyes”, do Limp Bizkit, com pagode (ninguém que saiba que essa música é do The Who faria uma coisa dessas). A verdade é que, com acústica ainda pior que a do Beer Experience, a música mais atrapalhava do que divertia.

Entre os serviços oferecidos, um chamou a atenção. Existia ali uma área para crianças com monitores, brinquedos e mesas de jogos.

WikiBier Festival 03
Área do WikiBier Festival destinada a crianças e adolescentes.

Mondial de la Bière, novembro, Rio de Janeiro

Ingresso: R$40 + taxa de inconveniência (R$6) antecipado e R$40 sem taxa de inconveniência nem fila na hora (sim, isso mesmo).

Originário do Canadá e com uma “filial” na França, o Mondial de la Bière fez sua estreia no Rio de Janeiro este ano. Mesmo mudando de lugar em cima da hora, o festival foi em um espaço localizado no centro do Rio, ao lado do Sambódromo e com estação de metrô perto.

O principal problema do festival aconteceu assim que chegamos. O ingresso comprado pela internet continha código de barras e deveria ser impresso pelos compradores, o que nos fez presumir que não precisaríamos passar pelo caixa, claro. Mas não foi bem assim. Enfrentamos uma fila de meia hora, porque era necessário trocar o voucher por outro ingresso. O processo era lento e burocrático, e a troca só podia ser feita pela pessoa que efetuou a compra. O funcionário passava o código de barras, conferia a identidade e o cartão de crédito do comprador, que então assinava a troca. Só aí o ingresso era impresso. Para piorar, apenas dois caixas faziam as trocas, e não era possível pegar ingressos dos próximos dias! Mas nada é tão ruim que não possa piorar: não havia espera para quem queria comprar o ingresso na hora, pois todos os outros caixas eram destinados a essas pessoas. O preço? O mesmo de quem comprou antecipadamente, mas sem taxa de conveniência.

Mondial de la Bière 01
Área dos workshops do Mondial de la Bière.

Por causa disso, entramos no festival com 20 minutos de atraso para uma das palestras em que nos inscrevemos. Não que tenha sido um problema, já que todas elas começaram com atraso. Leopoldo assistiu à palestra “Harmonização com comidas brasileiras”, e Carol assistiu a “Harmonização de queijos e cervejas”. A de comidas brasileiras foi um fiasco. A palestrante não havia preparado nada e falava de acordo com imagens que passavam em um slideshow no projetor. Foram degustadas cervejas da marca Diva e Divina, acompanhadas de absolutamente nada. Não houve sequer uma explicação sucinta sobre harmonização. A palestrante fez diversas confusões históricas e conceituais. Um chef francês foi copalestrante, mas falou muito pouco, sendo quase nada sobre cerveja. A palestra de queijos foi muito melhor. Além de servirem boas cervejas (incluindo a Rodenbach Caractère Rouge!), de fato havia queijo, e os palestrantes realmente sabiam do que estavam falando.

As cervejas tinham preços variados. Enquanto algumas cervejarias encararam o festival como oportunidade de mostrar seus produtos, outras fizeram do evento apenas mais um ponto de venda. Entre os lançamentos, destacamos a Wäls Niobium, Colorado Titãs e a Session IPA da 2Cabeças. A importadora Buena Beer trouxe cervejas canadenses e americanas exclusivamente para o festival.

Mais uma vez, havia filas intermináveis para comprar comida. Engraçado que, no espaço em que o Mondial foi realizado, existiam vários boxes fechados, provavelmente com instalações de cozinha. Quando perguntamos em uma das barraquinhas de comida o porquê da demora, nos disseram que a rede elétrica não suportava todos os equipamentos.

A água era oferecida de graça em pontos de hidratação, que serviam também para lavar os copos. Os banheiros eram suficientes e limpos. Na saída, já com o metrô fechado, foi dificílimo conseguir um táxi.

Mondial de la Bière 02
Mondial de la Bière

Como o post ficou enorme, acabamos cortando a parte em que falávamos do que esperamos de um festival cervejeiro. Fica para depois. E que 2014 seja um ano cheio de bons festivais cervejeiros!

Queijos e Cervejas 04

Queijos e Cervejas

Nem sempre um destino cervejeiro é um lugar que vende cerveja. Quem gosta de cervejas artesanais costuma gostar também de outros produtos que seguem a mesma linha, e conhecer boas lojas especializadas é tão importante como saber onde encontrar os melhores rótulos.

A Queijaria é a primeira loja de São Paulo especializada em queijos artesanais brasileiros. Seu proprietário, Fernando Oliveira, viaja pelo país visitando pequenos produtores, em busca de queijos genuinamente artesanais e únicos.

Queijos e Cervejas 01

Em parceria com A Queijaria, fizemos uma noite de harmonização de queijos brasileiros e cervejas brasileiras. Foram cinco os pares degustados:

– Moleson de cabra, da Frialp, Nova Friburgo/RJ + Saison à Trois, parceria entre a 2 Cabeças e a Invicta.

Existem apenas nove queijos tipicamente brasileiros, e o Moleson de Nova Friburgo é um deles. Produzido com leite de cabra, trata-se de um queijo de massa semidura e casca lavada e firme. Maturado por sessenta dias, o Moleson é amanteigado, levemente picante e de intensidade mediana.

A Saison à Trois é uma cerveja delicadamente ácida, condimentada, de amargor médio e final seco. As especiarias presentes na cerveja harmonizaram de maneira complementar com a característica levemente picante do Moleson. A acidez da Saison à Trois mescla-se à mesma característica presente no queijo. Apesar de delicada, a cerveja não “sumiu” diante do Moleson, graças à sua carbonatação abundante, que permite que os sabores da cerveja atravessem a consistência amanteigada do queijo.

Queijos e Cervejas 02
Tudo pronto para começarmos.

– Dionísio, da Fazenda Santa Luzia, Itapetininga/SP + Wäls Trippel, da Cervejaria Wäls.

Massa de frescal produzida com iogurte de leite de vaca, casca lavada com vinho branco e maturação em temperatura mais elevada: esse é o Dionísio. Com casca crocante, lembra queijo francês, só que mais suave. O queijo foi um sucesso tão grande na degustação que não sobrou uma peça sequer na loja. Como pode um queijo frescal se tornar algo tão complexo?

As notas de frutas amarelas e especiarias da Wäls Trippel combinaram muito bem com o Dionísio, cujas características são semelhantes às de um camembert. O azedinho e a terrosidade do queijo também mostraram afinidade com a acidez, efervescência e notas herbáceas da cerveja.

Queijos e Cervejas 03

– Tropeiro, da Fazenda Santa Luzia, Itapetininga/SP + Amburana Lager, da Way Bier.

O Tropeiro é um queijo suave, pastoso e untuoso. Fabricado com leite de vaca, tem sabor levemente adocicado. Na fase de testes para o evento, sequer cogitamos servir o Tropeiro com a Amburana Lager. A afinidade foi descoberta sem querer, quando testávamos o queijo com outras cervejas e acabamos comendo os pedaços restantes com a Amburana Lager, que estava sendo testada com outros queijos.

As notas de amburana presentes na cerveja casaram bem com o Tropeiro, que ora se mostra discretamente adocicado como a cerveja, ora salgadinho, contrastando com ela. Seu alto teor alcóolico mostrou-se compatível com a oleosidade do queijo, e não há muito mais como explicar, de forma teórica, este casamento incrível. Foi um daqueles casos de harmonizações improváveis, que fogem da cartilha e só são descobertas mediante muito teste.

Queijos e Cervejas 04

– Queijo “salaminho”, de Itamonte/MG + Rauchbier, da Bamberg.

Este queijo não tem nome ainda, mas durante os testes, foi apelidado de “salaminho”. Chamá-lo de provolone seria como chamar qualquer stout mais defumadinha de Rauchbier. Fabricado com leite de vaca, o queijo não é só defumado, como também bem seco e repleto de ervas. Em uma degustação às cegas, seria realmente possível confundi-lo com um embutido.

A harmonização, neste caso, é óbvia: a Bamberg Rauchbier é a versão líquida do “salaminho”. Defumado com defumado, não tinha como dar errado. Para melhorar, as notas carameladas da cerveja contrastam com o salgado intenso do queijo, enquanto a carbonatação elevada ajuda a aliviar essa característica.

Queijos e Cervejas 05

– Castanho, da Fazenda Santa Luzia, Itapetininga/SP + Imperial Stout, da Invicta.

Fechando com chavão de ouro, o Castanho é um queijo potente, maturado por três anos. Feito com leite de vaca, tem notas acastanhadas (daí o nome) e massa dura. De sabor adocicado, é perfeito para encerrar a noite.

O queijo casou, ou melhor, namorou, noivou, casou e saiu em lua de mel com a Imperial Stout da Invicta. Realmente feitos um para o outro, já que não há nada melhor que uma Imperial Stout para fechar uma refeição. A cerveja da Invicta é potente, tem alto teor alcoólico, corpo elevado, licoroso e aromas de café e baunilha. Todas essas características destacaram ainda mais as notas acastanhadas do queijo. Foi uma daquelas harmonizações que nos deixam sem saber de onde provêm os sabores que experimentamos. O resultado é um terceiro ser, ou seja, o casamento definitivamente foi consumado!

Queijos e Cervejas 06

Para terminar, tivemos uma agradável surpresa. Um dos participantes era cervejeiro caseiro e trouxe uma de suas cervejas para experimentarmos: a Zigbier Porter. A cervejaria surgiu quando um grupo de colegas de trabalho decidiu arrumar o que fazer enquanto esperava o horário do rodízio para voltar para casa. Compraram todo o equipamento e começaram as brassagens. A cerveja se tornou um sucesso entre amigos e clientes da empresa, e nós ficamos felizes com a oportunidade de conhecer a Zigbier. Além de ser uma boa Porter, cerveja caseira sempre ajuda a aproximar as pessoas. No final do evento, era como se todos os participantes estivessem dividindo uma mesa de bar.

A Queijaria fica na Rua Aspicuelta, 35, São Paulo/SP.

Porchetta + Rauchbier

O Mercado – Festival Gastronômico das Estações

No último domingo, dia 22/9, aconteceu a terceira edição do Festival Gastronômico “O Mercado”, no Modelódromo do Ibirapuera. Ainda que O Mercado não seja exatamente um festival cervejeiro, quatro das 62 barracas ofereciam diversas opções de cervejas artesanais, o que acabou transformando o evento em um destino cervejeiro. Só isso já faria com que o festival subisse no nosso conceito, mas a verdade é que O Mercado nos surpreendeu positivamente em todos os aspectos.

O Mercado 01

Chegamos ao Modelódromo por volta das 13h, e logo descobrimos a barraca da Cervejaria Nacional. Quem me conhece sabe que eu adoro a Mula, a IPA da cervejaria. Resultado: queimamos a largada e pegamos duas antes mesmo de decidir o que iríamos comer. Ainda na barraca da Nacional, descobrimos que a nova sazonal da cervejaria, a Ísis, seria lançada durante o festival, assim que alguma das cervejas fixas terminasse e houvesse onde engatar o barril. No final do dia, voltamos para prová-la. A base da Ísis é uma Mild Ale, refermentada com bastante mel silvestre. Como era de se esperar, tem um aroma incrível e provavelmente fará sucesso entre quem não é muito fã de amargor.

Da barraca da Nacional, seguimos em busca de comida. Começamos com o tempurá de lula com maionese de wasabi, do Miya, e choripán de cancha, do Arturito. Com cumbucas e copos em mãos, precisávamos nos sentar. No centro do gramado, havia duas tendas grandes com pufes e sofás. Não era difícil achar lugar para sentar. O festival contava ainda com mesas espalhadas atrás das barracas, para onde rumamos felizes com nossas iguarias. Assim que chegamos às mesas, começou a chover. Semiprotegidos pelas árvores, ignoramos. Quando acabamos de comer, porém, a chuva já estava forte demais. Nem guarda-chuva salvava. Corremos para uma das tendas e esperamos a chuva passar. Valeu a pena.

O Mercado 02

Fomos comprar mais fichas e passamos na barraca da Bamberg. Como ainda tínhamos R$5, aproveitamos para pegar uma Schwarzbier. Depois de enfrentar a fila do caixa (que andava rapidamente) e já munidos de um bom estoque de fichas, resolvemos testar uma harmonização. Optamos pela porchetta defumada à pururuca com molho de cachaça e jabuticaba, da Charcutaria, + Bamberg Rauchbier. Não tinha como dar errado, e realmente ficou perfeito. O defumado da Rauchbier obviamente combinou com o defumado da carne, enquanto a característica caramelada da cerveja harmonizou com o molho doce do prato.

Porchetta + Rauchbier
Porchetta + Rauchbier

Aí achamos pertinente fazer uma dieta e pegamos um cebiche de camarões com peixe branco em suco de tomate com ervas frescas, da Cebicheria Gonzales, e um vinagrete de polvo, da Neka Gastronomias. Para acompanhar a dieta, exercício: caminhamos até a barraca BEERD, onde encontramos a Founders Pale Ale, que caiu bem com nossos pratos light. Aproveitamos para dar mais uma passada na Bamberg e pegar uma Alt.

Já mais magros, descobrimos a porção de porco no rolete com farofa, vinagrete e torresmo, da Itaici Eventos. Ou seja, tivemos que voltar à Bamberg. Como não queríamos, a princípio, repetir cerveja, pegamos uma Bambergerator. A doppelbock combinou bem com o porco, mas o torresmo pedia uma Rauchbier. Talvez devêssemos ter harmonizado a porchetta com molho de jabuticaba com a Bambergerator, e deixado a Rauchbier para o porco com torresmo.

Bambergerator

Para saborear essas delícias, seguimos para uma das tendas. Por sorte, logo que nos sentamos, começou a apresentação da Gastromotiva, uma associação sem fins lucrativos que oferece cursos profissionalizantes em gastronomia para jovens de baixa renda, inclusive de outros países da América Latina. Achei o projeto incrível e fiquei bem feliz em conhecê-lo.

Porchetta
Porchetta

Quando a apresentação acabou, finalmente conseguimos um cardápio do festival. Eis que vemos a Cacau IPA, da Bodebrown em colaboração com a Stone, listada entre as cervejas da barraca Cervejário. Já não é segredo para ninguém que eu acho essa uma das melhores cervejas do mundo. Corremos para lá, claro. Não havia Cacau IPA. Pelo que entendi, a barraca trouxe poucas garrafas, que já haviam se esgotado. Uma parte de mim morreu naquele instante, mas me esforcei para não me deixar abater. Pelo menos ainda tinha a Double Vienna (com seu rótulo genial) da Morada, que estávamos querendo experimentar havia algum tempo. Pegamos também uma Hi-5, da 2Cabeças, e, sem muita preocupação em harmonizar, fomos atrás de mais comida. Escolhemos camarão e lula na manteiga de alho ao molho de gengibre, da X-Cook e Benihana.

hi-5

Para finalizar, porque ainda tinha gente com fome, pegamos o hambúrguer de cordeiro com maionese de hortelã, da M.A.B. Gastronomia. Estava tão bom que pedimos mais um. E já que a barraca da Bamberg estava logo ao lado, por que não tomar uma Raimundos Helles?

Antes de ir embora, ainda fomos às compras: queijo colonial de SC, do Mestre Queijeiro; gelatinas de cachaça (“sabor de infância”, de acordo com Leopoldo), da Cachaça & Afins; e geleias de abacaxi com jalapeños verdes e goiabada cascão com chipotle, da De Cabrón Pimentas. Durante essa última peregrinação, ainda acompanhamos a brassagem de uma IPA com jiló e boldo, da Lamas Bier, na barraca do Cervejário.

Brassagem da IPA com jiló e boldo.
Brassagem da IPA com jiló e boldo.

Acho importante dizer que havia, ainda, pelo menos três barracas de comida vegetariana e vegana. Além disso, as tendas estavam sempre animadas, com bandas em uma e DJs na outra. Depois que escureceu, o clima dentro delas era de balada. Dancei e tudo! Quanto às barracas de cerveja, a BEERD servia ainda os chopes Madalena e a Meantime Yakima Red; Cervejaria Nacional e Bamberg contavam com todas (ou quase todas) as suas cervejas; e o Cervejário oferecia rótulos da 2Cabeças, Bodebrown e Coruja, além da Saison à Trois, da Invicta + 2Cabeças. Os copos do Cervejário, no entanto, pareciam menores que 300 ml, divergindo do cardápio.

Suite tocando em uma das tendas.
Suite tocando em uma das tendas.

Já em casa, revisando o cardápio do festival para escrever este post, concluí que não experimentei nem metade do que gostaria. O que me deixou com água na boca: Chicharrones (costelinhas muito temperadas e crocantes, acompanhadas de milho andino), da Cebicheria Gonzales; tapioca de gorgonzola com abobrinha, da Aya Cuisine; lanche de linguiça de Bragança artesanal prensada, flambada na cachaça de alambique, coberta com queijos derretidos e creme de alho, da Linguiçaria Real Bragança; ragu de cordeiro com purê de batata e gruyère, queimado no maçarico, do Sal Gastronomia; clam chowder com pão de alho, da APC Brasil; Fila Brasileiro (mignon recheado com gruyère e gorgonzola, emapanado na farinha Panko), do Cão Véio; tapa de camembert de cabra, cebola caramelada em balsâmico e uva fresca, do Torero Valese; bolinho crocante de gengibre com lichia, confitura de rosas e pomelo, da Veri Noda; cannolo tradicional de ricota, frutas, cereja e pistache, da Cannoleria; e pão de cacau e pão jamaicano de banana e nozes, da Miolo Padaria Orgânica, para levar para casa. Aguardo ansiosamente a próxima edição d’O Mercado.

rumo a Ribeirão Preto

IPA Day Brasil

Primeiro um pouco de blá-blá-blá

IPA é o estilo favorito da maioria dos beer geeks, e é claro que os Estados Unidos têm sua culpa nisso. Desde os anos 1970, os americanos vêm resgatando estilos europeus já esquecidos no Velho Mundo, mas foi nas IPAs que conseguiram criar e consolidar sua escola cervejeira. Com uma gama de lúpulos até então desconhecidos pelo mundo cervejeiro, os americanos passaram a experimentar e, ao reviver um estilo cuja principal característica é justamente essa matéria-prima, acabaram encontrando sua identidade maior. Hoje, o mundo todo produz IPAs de tudo quanto é tipo: Wit IPAs, Black IPAs, Belgian IPAs, Imperial IPAs… São tantos subestilos que o estilo original passou a ser chamado de English IPA, para diferenciá-lo das inúmeras releituras modernas.

lúpulo

Todo beer geek que se preze conhece de cor a lenda das IPAs. No século XVIII, os ingleses precisavam mandar cervejas da Inglaterra para suas tropas na Índia. Para a cerveja chegar em boas condições, os cervejeiros produziam uma versão mais alcoólica e com mais lúpulo. O álcool e o lúpulo protegiam a cerveja de eventuais contaminações durante o percurso, e aos poucos o estilo começou a fazer sucesso também na Inglaterra.

A verdade é que o estilo combina muito bem com a Índia. O lúpulo e o amargor traziam refrescância, enquanto os maltes mais claros (um superavanço tecnológico para a época) faziam uma cerveja mais delicada que as Porters, o estilo mais popular de então. O lúpulo realça a picância dos alimentos, e certamente complementou bem a culinária típica da Índia. E se é bom pra Índia, há de ser bom para a Califórnia e o Brasil.

Tudo isso à vontade, durante um dia inteiro!
Tudo isso à vontade, durante um dia inteiro!

A onda das IPAs nos Estados Unidos, assim como o renascimento das cervejas artesanais, tem suas origens na Califórnia, um estado com um pouco de tudo. O ponto mais alto dos EUA continentais (excetuando-se o Alasca) fica na Califórnia, assim como o ponto mais baixo do lado de cá do Atlântico; a temperatura mais alta de que se tem notícia foi registrada no Death Valley; suas praias são famosas pelo surfe, mas suas estações de ski também não deixam a desejar. Junte a tudo isso a forte influência da cultura mexicana e oriental. Altas temperaturas, montanhas nevadas, comida picante, vontade de tomar cerveja… Praticamente uma Índia do século XVIII!

O estilo ficou tão importante que, em 2011, surgiu o International IPA Day. Todo ano, fãs de cerveja, cervejeiros e blogueiros celebram nesse dia o que se considera o principal estilo de cerveja artesanal. Desde 2012, o pessoal da Academia de Ideias Cervejeiras realiza em Ribeirão Preto a versão brasileira da festa, o IPA Day Brasil. Fomos conferir de perto a festa deste ano. Aproveitamos para conhecer Ribeirão Preto e suas cervejarias (assunto para um futuro post).

rumo a Ribeirão Preto

Rumo a Ribeirão Preto

Chegamos ao festival uma hora e meia após sua abertura, ou seja, desesperados. O desespero aumentou quando nos deparamos com uma longa fila. Pensamentos como “quando eu conseguir entrar não haverá mais Cacau IPA”, “passarei metade da tarde em filas de estandes e banheiros”, “jamais conseguirei lugar para sentar” e “vou passar fome neste festival” dominaram nossa mente. Porém, toda a logística de receber os convidados, pegar ingressos e entregar o copo com o guia do festival funcionou de maneira muito eficiente e sem burocracias. Em poucos minutos, nossos copos já estavam cheios de Holy Cow.

livrinho IPA Day

E por falar nisso, quando o copo oficial da festa foi divulgado, ficamos meio desconfiados. Essa moda do pote de geleia apareceu por aqui recentemente, e os bares que aderiram à onda usam frascos muito grandes e não muito anatômicos. Como metade da nossa equipe tem cultivado os pelos faciais com afinco, esses copos não têm sido muito bem vistos por aqui. Mas o que parecia uma viagem no vidro de maionese acabou se mostrando uma grande sacada da organização. A versão usada no IPA Day é um pouco menor e, consequentemente, mais anatômica. Nada de beber e babar! Um cordão foi adaptado à tampa do pote, facilitando muito a vida de quem sofre de ansiedade de separação do copo. Era só fechar a tampa e pendurar o “copote” ao pescoço na hora de ir ao banheiro, comprar comida, beber água… Nada de ficar equilibrando copo, carteira, celular e câmera.

Copo da multifuncionalidade.
Copo da multifuncionalidade.

O espaço do evento era dividido em três ambientes: uma grande pista com o palco para as bandas, um mezanino com vista para a pista e um jardim externo. As barraquinhas com as 22 IPAs do festival estavam espalhadas pelos ambientes, o que deixou as filas bem rápidas. A única fila mais demorada era a da KombIPA, da Bodebrown, estacionada justamente na área externa, o que acabou deixando a galera com a cor do verão. Talvez a opção de deixar as torneiras como self-service no começo da festa, ainda que interessante, não tenha sido a mais acertada, mas o importante é que a Cacau IPA, eleita a melhor cerveja do festival, só acabou quando a noite já havia caído.

área externa IPA Day

Do lado de fora, havia também um carrinho de churros, além do KomBurguer, que servia cachorro quente e um delicioso sanduíche de pulled pork. Na área interna, o menu incluía umas coxinhas sensacionais, costelinhas de porco e pratos vegetarianos. Era possível circular com facilidade e sem passar calor, ainda que o festival estivesse cheio e o dia, quente. Na área externa, havia sempre lugar para sentar, relaxar e tomar sua cerveja batendo papo.

área interna IPA Day

O IPA Day 2013 foi definitivamente o melhor festival a que já fomos no Brasil. O dia estava lindo, as pessoas interagiam de forma agradável e divertida, a música era boa, a comida estava deliciosa e o nível das cervejas era altíssimo. Certamente estaremos presentes na próxima edição. A única coisa que gostaríamos que melhorasse é a distribuição de água, que ficou restrita a um só lugar e com muita fila. O ideal seria poder tomar água no intervalo entre as cervejas, tanto para limpar o paladar quanto para hidratar e evitar a ressaca no dia seguinte!