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Delirium Café

Delirium Café et col.

Pensou em bar cervejeiro belga, pensou no Delirium Café. Mencionado na maioria dos guias turísticos de Bruxelas, é uma das atrações mais visitadas da cidade e fetiche de cervejeiros, por conta de sua carta de cervejas infinita. O bar alega oferecer 2013 rótulos de todos os cantos do mundo, e tirar uma foto foleando o gigantesco menu é o equivalente cervejeiro da famosa foto “empurrando” a Torre de Pisa.

Leopoldo e o menu infinito
Leopoldo e o menu infinito

Mas, para quem busca mais que um passeio turístico, a visita ao complexo Delirium requer certo planejamento. Hoje, são cinco bares dedicados à cerveja e dois voltados a drinks e destilados, quase todos ocupando o mesmo beco que sai da Rue des Bouchers. Do início da noite até altas horas da madrugada, o beco fica lotado de turistas mais jovens, empunhando copos gigantes de drinks coloridos. Deixando essa grosseria de lado, vamos ao que interessa: os bares cervejeiros.

O beco da alegria
O beco da alegria

O Delirium Café (Impasse de la Fidélité 4, subsolo), bar que começou tudo, é figurinha carimbada no roteiro da maioria dos turistas que visitam Bruxelas. Funcionando em um horário bem mais amplo que o comum na Bélgica, tem clima de balada e é frequentado principalmente por jovens. Durante o dia, é até possível conseguir um lugar para se sentar e folhear com calma a surreal carta de cervejas. Durante a noite, é difícil encontrar espaço até para ficar em pé, e escolher uma das 2013 cervejas vira um martírio, já que suas chances de conseguir um dos poucos menus é bem remota.

Delirium Café
Delirium Café

Dentre 2013 opções, existem várias cervejas de massa, evidentemente. Aqui você encontra, por exemplo, Brahma e Xingu, além de suas similares da Tailândia, África do Sul, Albânia e qualquer país de que possa se lembrar. Claro que não faltam cervejas locais mais comuns, encontradas mesmo aqui no Brasil ou em qualquer boteco belga, como as trapistas, a Duvel ou a Kwak. O grande diferencial é que, no Delirium Café, você também encontra algumas cervejas extremamente raras, mesmo na Bélgica. Conselho: vá munido de uma listinha de edições especiais ou cervejas de cervejarias realmente pequenas e com produções limitadas, para aproveitar o que o bar tem de melhor.

Tap House
Tap House

A Tap House (Impasse de la Fidélité 4, térreo) oferece 25 tipos diferentes de cervejas na pressão, a maioria delas produzida pela Huyghe – fabricante da Delirium. Assim, não traz grandes novidades para o cervejeiro mais experiente. Fica cheia a maior parte do dia e é decorada com propagandas antigas, carroças, barris e tudo que possa estar remotamente relacionado a cerveja.

Hoppy Loft
Hoppy Loft

O Hoppy Loft (Impasse de la Fidélité 4, primeiro andar) é o destino certo para quem busca cervejas de vanguarda. Com sua carta voltada às últimas tendências cervejeiras, oferece opções das mais renomadas cervejarias modernas, com destaque para americanas e seguidoras dessa escola. A carta oferece cervejas cobiçadas e edições especiais, para euforia de quem acompanha as novidades do mundo cervejeiro. Aqui, sim, perde-se um tempo considerável babando no cardápio. O problema é que a maior parte do público que procura o Delirium não está interessada em novidades, e o Hoppy Loft funciona predominantemente como salão de festas. Os horários de funcionamento são bem mais limitados, e o espaço com frequência está fechado para algum evento. Como poucas pessoas ficam muitos dias em Bruxelas, reze para que as agendas batam. Uma boa dica é passar no Delirium Monasterium primeiro, tomar a cerveja do seu santo de devoção e, quem sabe, conseguir um milagre.

Delirium Monasterium
Delirium Monasterium

E por falar em Delirium Monasterium (Impasse de la Fidélité 1), o bar é dedicado às cervejas trapistas e de abadia e tem clima um pouco mais solene. Decorado com vitrais, engana-se quem acha que encontrará aqui as desejadas Westvleteren. Já as outras trapistas são facilmente encontradas em qualquer supermercado e bar da Bélgica, geralmente com preços mais acessíveis que cervejas de fábricas comerciais. Como o Monasterium fica a poucos passos do prédio que abriga o Delirium Café, Tap House e Hoppy Loft, acaba valendo a visita. Porém, com tantos bares e cervejas para conhecer em Bruxelas, definitivamente não é um lugar onde gastaríamos mais de meia hora.

Saideira
Saideira

O Little Delirium (Rue du Marché aux Fromages 9), localizado na região da Grand-Place, é uma versão mais enxuta do bar original. São 30 torneiras de chope e uma carta mais contida (para padrões belgas) de cervejas engarrafadas. Apesar da pouca variedade, pode reservar alguma surpresa ocasional. Não vale desviar do seu caminho para conhecer, mas pode ser uma boa pedida para acompanhar um kebab das lanchonetes da região.

Os bares da Delirium são apenas uma pequena parte do que Bruxelas tem a oferecer em termos cervejeiros. Nos próximos posts, escreveremos sobre outros destinos cervejeiros da cidade, alguns já relativamente conhecidos, outros mais obscuros, mas não menos interessantes.

Weekend de la Bière 01

Weekend de la Bière

Weekend de la Bière 01

A Grand-Place de Bruxelas é um dos lugares mais bonitos de toda a Europa. Nela fica localizada a prefeitura de Bruxelas, ladeada pelas sedes das guildas medievais. Os registros mais antigos da Grand-Place são do século X, mas sua forma atual data do fim do século XVII. A praça foi completamente destruída pelos franceses em 1695 e, apenas quatro anos depois, já estava reerguida e mais bonita do que nunca, graças à exigência do governo de que todas as plantas de reconstrução fossem aprovadas, gerando um conjunto bastante harmonioso.

Weekend de la Bière 02

Uma das guildas que tiveram o direito de construir sua sede no principal endereço de Bruxelas foi a Guilda dos Cervejeiros. De todos os prédios históricos da praça, o único que continua representando a mesma classe é justamente a Maison des Brasseurs, que hoje abriga a sede da Associação dos Cervejeiros Belgas.

A Grand-Place é sede de diversas festas durante todo o ano, mas um dos mais aguardados festivais para o viajante cervejeiro é justamente o Weekend de la Bière, que ocorre no primeiro final de semana de setembro e conta com a presença de cervejarias de toda a Bélgica. Comparecemos à edição de 2012.

Confraria St. Feuillien

Durante os três dias de festa, Bruxelas recebe em suas ruas cervejeiros vestidos em trajes típicos, escoltados por guardas medievais. Das janelas da Maison des Brasseurs, corneteiros anunciam o início da festa após a missa e a condecoração dos cervejeiros que mais se destacaram. As cervejarias também capricham: suas confrarias desfilam paramentadas e com “tacinhas” de cerveja em punho. Durante o festival, bandinhas de jazz circulam entre a multidão, improvisando com qualquer tipo de aparato que encontram pela frente.

Bandinha

A festa se divide em três ambientes. A Grand-Place recebe as barraquinhas das cervejarias. São mais de 350 rótulos de dezenas de cervejarias: você pode tomar desde uma Jupiler da Ambev (nãããão!) até uma Westvleteren. É lá também que as bandinhas circulam e uma barraquinha serve comidas simples de rua (nesse caso, escargots e mexilhões).

Escargots

Outro espaço é a “Beer Street”, localizada nos fundos da Bolsa de Valores de Bruxelas. Trata-se de um grande balcão de 50 metros de comprimento com várias cervejas na pressão. O terceiro ambiente, fechado, é o imponente prédio da própria Bolsa de Valores. Lá, de hora em hora são servidas três cervejas diferentes com pratos harmonizados.

Harmonização na Bolsa de Valores

Todas as cervejas são servidas em suas respectivas taças de vidro. Como funciona isso? Você compra as tampinhas de cerveja – moeda oficial do festival que pode ser utilizada em qualquer dos dias, como deveria acontecer em todos os festivais do mundo – e mais uma ficha amarela. A ficha amarela serve de caução para o copo. Ao pedir a cerveja, você entrega as tampinhas correspondentes ao valor e também a ficha amarela. Terminada a cerveja, devolve-se a taça, pega-se a fichinha de volta. No fim do festival, o caixa devolve o valor da ficha amarela. Simples, não?

Carta de cervejas do Weekend de la Bière
Carta de cervejas do Weekend de la Bière

Entre o público, há todo tipo de gente. Conversamos com americanos aficionados por cerveja, belgas que trabalhavam nas cervejarias participantes, europeus mochileiros que deram a sorte de visitar Bruxelas durante o festival, e também um simpático chinês que distribuía revistas chinesas sobre cerveja. Por tudo o que envolve, o festival é realmente imperdível. Temos apenas uma única crítica, que faremos em forma de sugestão: procure uma hospedagem nos entornos da Grand-Place, porque os banheiros químicos, além de pagos, são bem poucos.

Mais fotos do Weekend de la Bière aqui.

Expedição Cervejeira

Expedição Cervejeira

Expedição Cervejeira

A melhor época para se viajar para a Bélgica é o início de setembro. É no primeiro final de semana desse mês que acontece o Weekend de la Bière, o principal festival de cervejas da Bélgica, montado na belíssima Grand-Place de Bruxelas. O Weekend de la Bière é o paraíso dos entusiastas da cerveja belga: o festival oferece mais de 350 rótulos locais.

Weekend de la Bière, na Grand-Place de Bruxelas
Weekend de la Bière, na Grand-Place de Bruxelas

Esse é o período, também, em que os campos de lúpulo estão no seu ponto mais esplendoroso, prontos para a colheita.

Colheita de lúpulo
Colheita de lúpulo

Para ficar ainda melhor, o clima, nessa época, é dos mais agradáveis. Sem o frio típico das outras estações, setembro é o mês menos chuvoso do verão, o que faz com que este seja um excelente período para se conhecer as cidades medievais, passear pelos campos e florestas belgas e navegar pelos canais holandeses.

Brugge
Brugge

Foi pensando nisso que escolhemos o mês de setembro para acompanhar um grupo por uma verdadeira expedição cervejeira. Em parceria com a Freeway e a PiU Comunica, criamos um roteiro com o que vivenciamos de melhor em nossas viagens pela Bélgica e Holanda.

Estradinha na região das Ardenas
Estradinha na região das Ardenas

Durante 14 dias, visitaremos cervejarias mundialmente famosas, mas também destinos cervejeiros obscuros, garimpados em nossas viagens; saborearemos a excelente culinária belga, recheada de pratos preparados e harmonizados com cerveja; passearemos por entre campos de lúpulo em flor; ficaremos hospedados no hotel da cervejaria St. Bernardus, fechado exclusivamente para nosso grupo, com todas as cervejas da marca à nossa disposição; almoçaremos entre enormes barris de carvalho onde repousam milhares de litros de Rodenbach; visitaremos mosteiros trapistas e seus respectivos bares oficiais, além de excêntricas cervejarias produtoras de lambic; e ainda daremos um pulinho na França, para jantar no restaurante oficial da Mont des Cats.

Almoço entre os barris da Rodenbach
Almoço entre os barris da Rodenbach

A viagem acontece de 4 a 18 de setembro. Se você se interessa por cerveja, ou tem vontade de conhecer Bélgica e Holanda e ainda aproveitar para desfrutar de todo o potencial gastronômico dessa região (os melhores chocolates, queijos premiados, culinária surpreendente e, claro, a escola cervejeira mais variada, criativa e artesanal), não deixe de conferir o site da Freeway. Lá você encontra o roteiro detalhado, valores e informações de contato.

Brouwerij 't IJ, cervejaria holandesa aos pés de um antigo moinho de Amsterdã
Brouwerij ‘t IJ, cervejaria holandesa aos pés de um antigo moinho de Amsterdã

Caso tenha alguma dúvida ou queira mais alguma informação, fique à vontade para entrar em contato também conosco, pelo formulário de contato do blog.

Orval Vert

Roteiro Trapista – Parte IV

Abbaye Notre-Dame d’Orval

Para encerrar a série “Roteiro Trapista”, guardamos o melhor para o final. A visita à Abbaye d’Orval foi certamente um dos pontos mais altos da viagem. Dentre as cervejarias trapistas, a Orval é a que possibilita a visita mais completa, bonita e interessante.

Sala de brassagem
Sala de brassagem

Somente durante dois dias do ano, a Abbaye d’Orval abre as portas de sua cervejaria para visitantes previamente cadastrados no site. No restante do ano, porém, ainda há muito o que visitar em Orval.

Visitamos a abadia em um dos dias de abertura ao público. A fábrica é muito bonita por dentro: tanques de cobre, chão de vidro e vitrais nas paredes dão um ar eclesiástico à sala de brassagem. É possível passear entre os tanques de fermentação horizontais, e cruzar com um monge por lá não é nada incomum. Cenas inusitadas tornam tudo mais interessante. Enquanto ouvíamos explicações sobre os lúpulos utilizados no dry hopping, um casal se aproxima de um funcionário da fábrica e fala algo em seu ouvido. Após uma resposta positiva, a mulher tira uma garrafa de vidro da bolsa. Eis que o funcionário abre o tanque de fermentação, enche a garrafa com o fermento utilizado na Orval e entrega-a para o casal, dizendo: “Não vão fazer uma cerveja melhor que a nossa!”.

Monge passeando pelos fermentadores
Monge passeando pelos fermentadores

O mosteiro atual está localizado em um vale e foi construído em volta da antiga abadia, que foi completamente destruída pelas tropas napoleônicas. Suas ruínas ficam abertas para visita, bem como alguns de seus prédios. A antiga cervejaria virou um pequeno museu, onde vídeos demonstram os processos de produção em uma instalação futurista. O museu da Orval conta ainda com uma coleção de garrafas e taças antigas, além de outras curiosidades.

Museu da Orval
Museu da Orval

A abadia por si só já vale a visita. Os prédios construídos na década de 1920 foram projetados pelo arquiteto Henry Vaes, e o complexo é um dos grandes representantes do estilo art décor da Bélgica. O mesmo arquiteto foi responsável pelo design das garrafas e dos rótulos usados até hoje com pouquíssimas modificações.

O belo e impressionante jardim interno do mosteiro pode ser visto de longe. É fechado e reservado aos monges e àqueles que se hospedam por lá. Na Bélgica, é muito comum hospedar-se nos mosteiros em busca de paz interior, e muitos jovens acabam usando esse retiro para estudar em épocas de provas. Os hóspedes devem seguir o mesmo estilo de vida regrado dos monges.

Abbaye Notre-Dame d’Orval
Abbaye Notre-Dame d’Orval

No subsolo da igreja fica o museu do mosteiro, com peças de metal que os monges produziam em séculos passados. A antiga farmácia também é aberta a visitação, e hoje suas salas foram convertidas em um espaço para exposições. Antes de ir embora, vale passar na lojinha do mosteiro, que vende artigos religiosos, livros, suvenires, cerveja e queijo.

Depois de visitar a abadia, o L’Ange Gardien, café oficial da Orval, é parada obrigatória. O restaurante serve pratos saborosos, além da Orval Vert (ou Petite Orval), a versão da Orval sem a refermentação na garrafa. O resultado é uma cerveja de teor alcoólico menor, dry hopping mais evidente e sem o toque característico do Brettanomyces.

Orval Vert
Orval Vert

Outra coisa muito legal da Orval é que a cervejaria confere um título aos bares que vendem sua cerveja da forma correta. Se, ao entrar em um bar da Bélgica, você vir uma plaquinha com os dizeres “Ambassadeur d’Orval,” pode ter certeza de que vai encontrar Orval na temperatura ideal, servida no copo correto e, mais importante, poderá escolher entre uma garrafa nova ou uma garrafa com pelo menos seis meses de idade, o que tem um impacto tremendo no sabor.

L'Ange Gardien
L’Ange Gardien

A Abbaye d’Orval, além de produzir nossa cerveja trapista preferida, proporcionou-nos um dos dias mais incríveis da nossa viagem. A visita é realmente imperdível.

Mais fotos da nossa visita à Orval aqui.

Degustação mista

Roteiro Trapista – Parte III

Chimay e Rochefort

As cervejarias trapistas da Valônia (parte da Bélgica que fala francês) ficam razoavelmente próximas umas das outras, de forma que é possível visitá-las escolhendo-se uma das cidades como base. Nós, no entanto, optamos por nos hospedar tanto em Chimay quanto em Orval (sobre a qual escreveremos em outro post), passando pelo mosteiro de Rochefort no caminho entre uma e outra.

Abbaye Notre-Dame de Scourmont – Chimay

Visitar a Chimay tem um significado especial para nós, afinal de contas, em 2008, passamos alguns dias da nossa lua de mel no Auberge de Poteaupré, hotel e restaurante da Chimay. Gostamos tanto que voltamos no ano seguinte, ainda que só por uma tarde.

Abbaye Notre-Dame de Scourmont
Abbaye Notre-Dame de Scourmont

De 2009 para cá, muita coisa mudou no Auberge de Poteaupré: além de hotel e restaurante, o estabelecimento agora conta também com o Espace Chimay, um espaço inaugurado em 2011 para contar a história do mosteiro e da produção da cerveja. A antiga lojinha da cervejaria, que antes ficava dentro do restaurante e permanecia fechada boa parte do tempo, agora faz parte do Espace Chimay e está sempre aberta. Em 2008, nenhum dos funcionários do Auberge falava inglês; na nossa última visita, todos falavam.

Espace Chimay
Espace Chimay

Já o hotel, que tem apenas sete quartos, não mudou muito. Todos os quartos são decorados com anúncios antigos e atuais da cervejaria, e o frigobar é abastecido de Chimay. Como o hotel fica na área rural da cidade, a vista de metade dos quartos é a área externa do restaurante, um campo repleto de vacas e o bosque da região.

Restaurante Auberge de Poteaupré
Restaurante do Auberge de Poteaupré

O restaurante serve uma variedade de pratos, a maioria preparada com as cervejas e os queijos produzidos pelos monges. Cada um dos queijos Chimay harmoniza com uma das cervejas, e o restaurante oferece não apenas a popular degustação de cervejas e a tradicional tábua de queijos como também degustações mistas. O cardápio inclui almôndegas ao molho Chimay (de queijo ou cerveja), truta rústica, camarão com molho de tomate gratinado com queijo Chimay e coelho com ameixas na cerveja. Para sobremesa, tiramisù, mousse de chocolate com spéculoos e sabayon. Spéculoos é um biscoito típico da Bélgica, feito com canela, cravo, gengibre, noz moscada e cardamomo. Sabayon é como os belgas chamam a tradicional sobremesa italiana “zabaione”. Na versão belga, porém, é comum utilizar-se cerveja no lugar do vinho. Diversas cervejarias oferecem a sobremesa em seu cardápio.

Degustação mista
Degustação mista

Além das três cervejas tradicionais, há ainda mais uma, encontrada exclusivamente no Auberge de Poteaupré: a Chimay Dorée. Leve e refrescante, é a cerveja produzida para consumo próprio dos monges. As sobras vão para o Auberge e, ocasionalmente, é possível encontrar a Chimay Dorée em lojas especializadas de Bruxelas. Em nossa última visita, tivemos a chance de experimentar também a Chimay 150ème, uma tripel intensamente condimentada, produzida em comemoração aos 150 anos do mosteiro.

Abbaye Notre-Dame de Saint-Rémy – Rochefort

Por mais triste que seja, a verdade é que, do ponto de vista cervejeiro, não há praticamente nada para se fazer em Rochefort. Ocasionalmente, a Abbaye Notre-Dame de Saint Rémy abre sua cervejaria para alguns grupos, geralmente de pessoas ligadas ao mercado cervejeiro. Porém, de forma geral, a cervejaria não é acessível a visitantes. Sabemos que a Rochefort não é a única cervejaria trapista que não permite visitas; a diferença é que todas as outras têm um café oficial onde servem suas cervejas na pressão.

Abbaye Notre-Dame de Saint-Rémy
Abbaye Notre-Dame de Saint-Rémy

Até pouco tempo, a cidade contava com um restaurante que funcionava como café da cervejaria, apesar de servir somente a versão engarrafada das cervejas do mosteiro. Agora, que esse restaurante fechou, a visita a Rochefort se resume a uma pequena área externa e à igreja do mosteiro. Na nossa opinião, não vale a viagem. É preferível visitar alguma outra cervejaria não-trapista ou passar o dia experimentando cervejas em um bom bar.

Mais fotos desse trecho da viagem na nossa página no facebook.

Cozinha da La Trappe

Roteiro Trapista – Parte II

La Trappe, Westmalle e Achel

Para visitar a La Trappe, na Holanda, assim como a Westmalle e a Achel, na parte flamenga da Bélgica, escolhemos a Antuérpia como base. De lá até nossos destinos, a viagem de carro leva entre meia hora e uma hora e meia.

Onze Lieve Vrouw van Koningshoeven – La Trappe

Única holandesa da turma, a cervejaria fica na cidade de Tilburg, perto da fronteira com a Bélgica. É de longe a trapista com visão comercial mais avançada. Em 1999, a Bierbrouwerij de Koningshoeven havia se tornado tão comercial que chegou a perder o selo trapista durante alguns anos, por não se adequar às regras da Associação Internacional Trapista. Em 2005, a cervejaria recuperou o direito de usar o selo.

Mosteiro da La Trappe

O mosteiro de Koningshoeven foi fundado em 1881 por monges vindos da França, do mosteiro de Mont des Cats. Naquela época, as leis francesas contra a Igreja Católica se tornaram uma ameaça aos mosteiros. Temendo por sua situação, os monges decidiram comprar terras na Holanda e construir um mosteiro temporário como refúgio. O plano era se sustentar com o que plantassem e produzissem. O terreno, no entanto, não era bom para o plantio, e os monges logo tiveram que arrumar outra fonte de renda. Foi aí que resolveram produzir cerveja, em 1884.

Cozinha La Trappe
Cozinha da La Trappe

Já no século XX, durante o período de 1969 a 1980 (antes da existência do selo trapista), o mosteiro de Koningshoeven firmou um contrato com a Stella Artois, para a produção de suas cervejas, todas lagers. Em 1980, o mosteiro retomou as atividades cervejeiras e passou a produzir uma ale, batizando-a de La Trappe. Seu portfólio foi crescendo continuamente e, hoje, a Koningshoeven é a cervejaria trapista mais prolífica, com 10 rótulos diferentes, além das variações dos lotes da Oak Aged. Pouca gente sabe, mas a Koningshoeven ainda produz receitas para outras cervejarias, como a Tilburg’s Dutch Brown Ale e as Urthel, porém sem seguir os preceitos para a fabricação de produtos trapistas.

A Koningshoeven é a única trapista que oferece regularmente visitas guiadas à cervejaria, com direito a degustação. As visitas são conduzidas em inglês ou holandês, dependendo do grupo. Caso não seja possível agendar uma visita no seu idioma preferido, o visitante recebe um panfleto contando a história da abadia e da cervejaria, para não se perder durante as explicações.

Café da La Trappe

O café da La Trappe é moderno e muito agradável. O cardápio é variado e inclui hambúrgueres, massas e sobremesas. Com exceção da Oak Aged, o café oferece todas as La Trappe na pressão. Com tanta cerveja e um ambiente tão divertido, é possível ficar horas por lá sem ver o tempo passar.

Para terminar, uma loja dentro do mosteiro oferece, além das cervejas lá produzidas, diversos produtos religiosos, doces, chocolates e souvenires da marca La Trappe.

Loja da La Trappe

Onze-Lieve-Vrouw van het Heilig Hart – Westmalle

Dentre as cervejarias trapistas, a Westmalle é uma das mais antigas, fabricando cerveja ininterruptamente desde 1836. Sua tripel, em produção desde 1934, é considerada uma das precursoras do estilo. A Westmalle é uma das poucas cervejarias trapistas que faz uso de lúpulos em flor, além de ser responsável por isolar uma cepa de levedura utilizada não apenas lá, mas também na Achel e na Westvleteren. Irmão Thomas, que até o ano de 1998 era seu mestre-cervejeiro, é um dos mais influentes monges cervejeiros entre os trapistas e, mesmo depois de aposentado, ajudou a implantar a cervejaria do mosteiro de Achel.

Café Trappisten

Quase em frente ao mosteiro, no mesmo lugar em que ficava o antigo Café Trappisten, foi construído um novo café mais moderno. O interessante é que preservaram a parede com a antiga entrada, que agora leva a um jardim. O estabelecimento serve as duas cervejas produzidas comercialmente no mosteiro (dubbel e tripel) e, ocasionalmente, uma terceira, a Westmalle Extra, produzida originalmente para consumo dos monges. O Café Trappisten é um dos poucos lugares em que é possível encontrar a Westmalle Dubbel na pressão.

Café Trappisten

No balcão do café, é possível comprar produtos trapistas de outros mosteiros, como vinhos, compotas e sabonetes. A comida do café é elegante e de qualidade. Os pratos incluem massas com queijos trapistas e receitas tradicionais belgas, como Carbonnade Flamande, feita com Westmalle Dubbel. A sobremesa? Sorvete com calda de passas e Westmalle Tripel.

Carbonnade Flamande do Café Trappisten

Achelse Kluis – Achel

A Achel era a mais nova cervejaria trapista, até a chegada da Gregorius (do mosteiro de Engelszell). Apesar de seu histórico cervejeiro no século XIX, a Achel não produzia cerveja desde o fim da Primeira Guerra, quando sua planta foi desmantelada pelos alemães, com o intuito de reutilizar o metal para fins bélicos. Em 1997, os monges resolveram retomar suas atividades cervejeiras e chamaram justamente o Irmão Thomas, que havia acabado de se aposentar como mestre-cervejeiro da Westmalle.

Fronteira entre Bélgica e Holanda e mosteiro de Achel ao fundo

O mosteiro da Achel fica quase na Holanda. Na verdade, parte do prédio do mosteiro está em solo holandês, e uma linha pintada no estacionamento indica a fronteira entre os dois países. O café da Achel fica dentro do mosteiro, separado da cervejaria por uma parede de vidro. O cardápio é simples, limitando-se a sopas e sanduíches típicos das friteries belgas. A sobremesa, adivinha! Sorvete feito com cerveja!

Café da Achel

O cliente faz o pedido diretamente no balcão e leva sua bandeja para a mesa, podendo se acomodar na parte interna do café ou nas mesas externas espalhadas pelo pátio do mosteiro. Além de vender suas duas cervejas tradicionais em garrafas de 330 ml (Achel 8° Blond e Achel 8° Bruin), o café oferece com exclusividade as versões mais leves, Achel 5° Blond e Achel 5° Bruin, na pressão.

Mesas externas do café da Achel

A cervejaria produz ainda versões mais fortes das mesmas cervejas (Achel Extra Blond e Achel Extra Bruin), com 9,5% de álcool, comercializadas em garrafas de 750 ml. A Extra Blond é vendida exclusivamente na “lojinha” do mosteiro, que abre apenas aos sábados e funciona, na verdade, como mercadinho da região. Além de artigos variados, a loja oferece uma infinidade de cervejas belgas. O preço das trapistas é mais convidativo que em qualquer outro lugar, incluindo-se as lojas das próprias cervejarias. Além disso, em setembro, o mercado da Achel foi o único lugar da Bélgica em que encontramos a Gregorius, a nova trapista austríaca. Mas disso a gente fala no próximo post…

Mais fotos desse trecho da viagem aqui.

La Corne du Bois des Pendus

Kwak x La Corne

Kwak x La Corne (ou Por que a Struise é uma cervejaria punk)

Uma atitude polêmica praticada recentemente por uma grande cervejaria belga ameaça tirar do mercado uma microcervejaria cuja produção equivale a 0,5% da sua.

A cervejaria Bosteels, de Buggenhout, produz apenas três cervejas: a DeuS, considerada a primeira bière brut do mundo; a Karmeliet, uma premiada tripel de qualidade indiscutível; e a Pauwel Kwak, cuja fama se apoia em sua armação de madeira, que também acomoda sua taça em forma de ampulheta.

Copo Kwak
Kwak

A microcervejaria d’Ebly, localizada em uma vila de mesmo nome, produz duas cervejas: a La Corne du Bois des Pendus Blonde e a La Corne du Bois des Pendus Triple. Seu jovem dono, Gaëtan Patin, fabrica suas receitas nas dependências de outra cervejaria, uma vez que ainda não possui instalações próprias. Seus produtos, ao que tudo indica, são muito apreciados pelos moradores da região, podendo ser encontrados também nos grandes centros da Bélgica e em países vizinhos.

Acontece que o copo criado pela Brasserie d’Ebly para servir suas duas cervejas incomodou a Bosteels, que resolveu processar a microcervejaria. De acordo com a Bosteels, se um copo tem uma armação de madeira como base, trata-se de cópia do copo da Kwak.

La Corne du Bois des Pendus

O copo da Kwak foi concebido, teoricamente, para que os cocheiros pudessem encaixá-lo à carruagem e beber sua cerveja sem deixar o veículo. Já o formato da taça da La Corne é uma referência ao nome da cerveja e remonta ao antigo costume de usar chifres como copo, observado em diversas culturas, inclusive entre os gauleses, que habitavam no passado a região da Bélgica.

Os custos do processo, independentemente da sentença, colocam em risco a continuidade das atividades da Brasserie d’Ebly, esta enorme ameaça à Bosteels.

E a Struise com isso?

Esta semana, a Struise, uma das mais aclamadas e criativas cervejarias artesanais da Bélgica, resolveu se posicionar publicamente em relação aos acontecimentos. Não contente em manifestar sua indignação contra a Kwak e declarar apoio irrestrito à La Corne, a cervejaria anunciou no facebook a compra de 10.000 copos do modelo yard glass, que receberão o logo da Struise e acompanharão o lançamento de uma nova cerveja. Envelhecida por dois anos em barris de borgonha e por um ano em barris de bourbon, a cerveja, uma Flanders Oud Bruin, provavelmente se chamará Rebel. No entanto, não param de chegar sugestões de nomes na página da Struise no facebook: Kawk, Kwik, Duck, Kwakzalver (“charlatão”), e por aí vai.

Yard glass

Vale dizer que a Struise, apesar de sua produção relativamente pequena e artesanal, é uma cervejaria já muito bem conceituada e estabelecida no mercado, com uma reputação a zelar. Além disso, ao contrário da Brasserie d’Ebly, que fica na parte francesa da Bélgica, a Struise está situada na parte flamenga do país, assim como a Bosteels. Para os belgas, essa divisão não costuma ser irrelevante. A Struise poderia se posicionar a favor da Bosteels, por ser uma cervejaria regional e poderosa; poderia ficar em cima do muro, já que a contenda não lhe diz respeito; e poderia se manter fiel ao que acredita, apoiando a microcervejaria e comprando a briga. Enquanto a maioria simplesmente se esconde e foge de confusão, a Struise enfrenta os grandes e protesta. Não poderia zelar melhor por sua reputação.

Se quiser apoiar a La Corne também, esta é a página da cerveja no facebook.

Bzart

Bzart Lambiek

A lambic brut da Oud Beersel

O casamento entre lambic e o método champenoise deu tão certo que é difícil acreditar que nenhuma cervejaria tenha ousado juntar as duas coisas antes. Se por um lado a produção de lambic é supertradicionalista, por outro as cervejas de fermentação espontânea são o estilo mais frequentemente comparado aos vinhos.

Talvez por falta de precedentes, a Bzart é classificada no Rate Beer e no Beer Advocate como uma gueuze. Trata-se, no entanto, de uma bière brut, produzida somente com lambic envelhecida por 13 meses, e não com um blend de lambics de diferentes idades. A base da Bzart é, portanto, uma unblended lambic. E, ainda que ocorra a adição de açúcar e levedura de champanhe, esse procedimento faz parte de uma segunda etapa, responsável por transformar a cerveja em uma bière brut.

Ao contrário das lambics puras tradicionais, que costumam apresentar pouca ou nenhuma espuma, a Bzart é, como se esperaria de uma bière brut, uma cerveja bastante carbonatada. Outra característica que difere a Bzart de sua cerveja de base é a limpidez: com o emprego do método champenoise (ou “método tradicional”, quando aplicado fora da região de Champagne), ocorre a expulsão do fermento, por meio do processo de dégorgement. Tudo isso resulta em uma cerveja dourada, transparente, com bela formação de bolhas e espuma.

Os aromas, embora atenuados pela delicadeza típica das bières brut, são característicos das lambics: notas lácticas, animalescas, amadeiradas e terrosas. No paladar, a acidez domina, mas de maneira equilibrada: a cerveja é menos agressiva que uma gueuze, porém mais ácida que uma lambic pura.

Comparada às outras bières brut belgas, esta da Oud Beersel é a que mais se assemelha a um espumante. Isso porque, assim como o vinho, sua cerveja de base é ácida. Ao contrário das outras bières brut, a acidez da Bzart resulta não só do uso de levedura de champanhe, mas também da fermentação primária da lambic por leveduras selvagens. Menos doce que as bières brut da Malheur e sem os condimentos que caracterizam a Deus, da Bosteels, a Bzart tem a acidez e a leveza típicas dos espumantes. A maior diferença fica por conta do teor alcoólico, 8%, e da complexidade e perfil excêntrico da cerveja. Delicada como um espumante, a Bzart é, ainda assim, uma cerveja selvagem.

janela-de-garrafas

Oud Beersel

Casamento na cervejaria
Casamento na cervejaria

Escrevemos um artigo sobre a cervejaria Oud Beersel para a revista Gula do mês passado. Para quem perdeu, estamos publicando o texto original (sem edição) que enviamos para a revista. E não deixem de conferir a edição da Gula deste mês, que já está nas bancas, com um artigo nosso sobre destinos cervejeiros em Amsterdã.

Oud Beersel

A Bélgica não é simplesmente o país da cerveja; mais que isso, é o país das cervejas únicas. E as cervejas belgas mais especiais e exclusivas são certamente as lambics. Pouquíssimas cervejarias produzem esse tipo de cerveja, e todas elas estão concentradas em uma pequena região nos arredores de Bruxelas. O que há de tão especial nessas cervejas? Elas são produzidas por fermentação espontânea. Para fabricá-las, o mestre cervejeiro não inocula leveduras selecionadas em um ambiente asséptico, livre de contaminação. Em vez disso, o mosto cervejeiro fica exposto ao ar, recebendo as leveduras naturalmente presentes no ambiente. Além da fermentação alcoólica normal, essas leveduras acabam gerando outros produtos, como o ácido láctico. Assim, o amargor dá lugar à acidez como principal característica, originando um estilo que foge completamente a todas as noções atribuídas a cerveja: algumas lambics, além de serem muito ácidas, têm pouquíssimo gás.

O processo todo de fabricação é bastante lento, uma vez que a cerveja precisa passar alguns anos dentro de barris de madeira – geralmente carvalho – para que a fermentação ocorra por completo. Esse período de repouso proporciona notas amadeiradas à cerveja, que aparecem acompanhadas de notas caprílicas, provenientes do ácido láctico.

Para produzir determinados estilos de lambic, entra em jogo outra habilidade essencial do mestre cervejeiro: misturar os barris. As cervejas mais antigas tendem a apresentar pouco CO2 e açúcar. As mais jovens, leveduras mais ativas e maior teor de açúcares fermentescíveis. Ao misturar cervejas de idades diferentes, reativa-se a fermentação e balanceiam-se as características de barris muito ácidos. Em outros casos, adicionam-se frutas (tradicionalmente cereja) ao processo.

Cervejaria Oud Beersel
Cervejaria Oud Beersel

Uma das mais tradicionais cervejarias de lambic é a Oud Beersel, que fica a pouco mais de 10 km do centro de Bruxelas, na cidade de Beersel. Fundada em 1882, a cervejaria passou de pai para filho ao longo do século XX. Em 2003, o então proprietário resolveu fechar o negócio e se aposentar. Entra então em cena o jovem Gert Christiaens. Ele e seu pai costumavam tomar Oud Beersel nos bares de Bruxelas, até que, certo dia, foram informados pelo garçom de que aquela seria sua última Oud Beersel, uma vez que a cervejaria encerraria suas atividades. Só lhes restava uma alternativa: comprar a cervejaria, evitando, assim, que uma parte tão importante da tradição cervejeira belga se perdesse e, de quebra, garantindo a continuidade de suas cervejas preferidas. Com a ajuda de outras cervejarias e de fãs do estilo, Gert e sua família conseguiram reerguer a Oud Beersel, que, hoje, é uma das mais respeitadas e premiadas produtoras de lambic.

Gert Christiaens durante a visita à cervejaria
Gert Christiaens durante a visita à cervejaria

Aos sábados, a cervejaria vende seus produtos em uma lojinha montada na garagem da fábrica. Durante todo o dia, moradores locais estacionam em frente à loja e saem carregados de caixas para abastecer seus estoques. Há até mesmo quem venha de países vizinhos para comprar as cervejas e misturá-las em casa, a seu próprio gosto. No primeiro sábado de cada mês, a cervejaria oferece visitas guiadas e degustações, atraindo entusiastas do mundo todo.

Cervejas produzidas pela Oud Beersel:
Bersalis Tripel e Bersalis Kadet: ales fabricadas para ajudar a financiar o renascimento da Oud Beersel como produtora de lambic.

Oud Beersel Lambic: lambic pura encontrada apenas na loja da cervejaria e, esporadicamente, em bares selecionados da região. Servida diretamente do barril, não apresenta nenhum vestígio de espuma. Todos os aromas da cervejaria parecem ser sintetizados nesta lambic, tornando a experiência quase sinestésica. Intensamente ácida, se comparada a cervejas de outros estilos, mas bem equilibrada para uma lambic.

Oude Geuze: obtida a partir da mistura de lambic jovem (um ano) com lambic envelhecida (até três anos), resultando em acidez mais suave e presença mais acentuada de gás. Nesta gueuze, ao contrário do que se espera do estilo, a presença do lúpulo é perceptível. A acidez e um leve amargor coexistem em perfeita harmonia. Como as características desse tipo de cerveja continuam a se desenvolver com o passar do tempo, as garrafas são “safradas”, podendo ser armazenadas por tempo indefinido.

Oude Kriek e Framboise: produzidas com a adição de frutas inteiras (cereja e framboesa, respectivamente) à lambic pura, o que proporciona notas naturalmente frutadas e coloração vermelha à cerveja. Diferentemente das fruit beers, estas não são cervejas doces, uma vez que não há adição de açúcar.

Bzart Lambiek: ainda no primeiro lote, trata-se de uma lambic submetida a uma segunda fermentação na garrafa, com o uso de leveduras de champanhe. A Oud Beersel não é a primeira cervejaria belga a utilizar o método champenoise na fabricação de cervejas, mas a Bzart é a única lambic produzida dessa forma.

Cenas do próximo capítulo
Quando escrevemos esse artigo, ainda não havíamos experimentado a Bzart. Em breve escreveremos mais um pouco sobre essa cerveja incrível e inovadora, uma verdadeira lambic brut.

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3 Fonteinen vintage

Melhor bar de lambic da Bélgica

3 Fonteinen vintage
3 Fonteinen vintage

Pajottenland, uma pequena região a oeste de Bruxelas, é a terra das lambics. Com exceção da Cantillon, todas as cervejarias produtoras de lambic (no meu idioma particular, “lambiquerias”) ficam nessa região, situada na parte flamenga do país. Como seria de se imaginar, fica também em Pajottenland o melhor bar de lambic da Bélgica, o In de Verzekering Tegen de Grote Dorst.

Localizado na cidadezinha de Eizeringen em frente à igreja, o “Garantia Contra a Grande Sede” nem sempre pertenceu aos atuais proprietários. Em 1999, a então dona do estabelecimento, já idosa e cansada de servir cerveja por mais de 50 anos, decidiu se aposentar. Foi então que os irmãos Yves e Kurt Panneels, ávidos colecionadores de lambic, decidiram comprar o bar, que hoje abre somente aos domingos de manhã no horário da missa, nos feriados e em dias de funeral na igreja. Juro por deus.

Interior do bar
Interior do bar

Em razão do horário de funcionamento bizarro, estávamos hesitantes em conhecer o lugar. Sabíamos de seu status de lenda. Sabíamos que sua carta de lambics era enorme e incluía garrafas envelhecidas. Porém, cinco semanas na Bélgica contêm apenas cinco domingos, e a maior parte dos eventos, festivais e dias de visita se concentra nos finais de semana. Além disso, não tínhamos certeza se o bar era parte da igreja, se era totalmente aberto ao público ou um local improvisado apenas para convidados.

Eis que, logo no início da viagem, durante uma visita à cervejaria Oud Beersel, fomos apresentados a um dos donos do Grote Dorst. Durante nossa breve conversa, Yves esclareceu que o estabelecimento é um bar normal, destinado ao público em geral. Contou também que, para enriquecer sua coleção, está sempre de olho nos obituários da região, e faz peregrinações a fazendas antigas e casas à venda, em busca de garrafas esquecidas em porões, adegas e celeiros.

In de Verzekering Tegen de Grote Dorst
In de Verzekering Tegen de Grote Dorst

Mas não foi só isso. Yves nos contou, de forma despretensiosa, algo ainda mais interessante: está organizando um evento de lambics no Brasil, em parceria com alguns nomes proeminentes da cena cervejeira.

Algumas semanas depois, fomos ao Grote Dorst. A visita ao bar é, de fato, imperdível. São straight lambics, gueuzes, krieks, framboises e faros de inúmeras safras, de todas as “lambiquerias” existentes (inclusive de algumas que já não estão mais entre nós). Contrariando nossos receios, o ambiente é acolhedor, cordial e totalmente receptivo a turistas. A atmosfera é muito agradável, tanto dentro do bar quanto nas mesas ao ar livre, com vista para a igreja. Trata-se de um negócio de família à maneira belga: são os próprios donos, juntamente com seus pais, que cuidam do estabelecimento.

Kurt, sua mãe e seu pai
Kurt com a mãe e o pai

Além do bar, Yves gerencia também um B&B (no caso, Bed & Beer), The House of Gueuze. O hóspede pode escolher entre a fórmula tradicional “hospedagem + café da manhã” e a fórmula cervejeira “hospedagem + degustação e palestra sobre Pajottenland”.

Antes de deixarmos o Grote Dorst, conversamos novamente com Yves, em busca de mais detalhes sobre o tal evento. Yves reafirmou que o festival acontecerá, mas ainda não tinha muitas informações, exceto onde e quando: São Paulo, primeiro semestre de 2013.

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Westvleteren 12

Roteiro Trapista – Parte I

Mont des Cats, St. Bernardus e Westvleteren

As seis cervejarias trapistas belgas são bem democráticas: metade está na parte francesa e metade está na parte flamenga do país. Para visitar a Westvleteren, escolhemos ficar em Watou, aproveitando para visitar também a Abadia de Mont des Cats e a cervejaria St. Bernardus, já que as três estão historicamente interligadas. Por esse motivo, decidimos falar da Mont des Cats e St. Bernardus neste post, ainda que as duas não sejam cervejarias trapistas.

Watou fica na região de Poperinge, principal região produtora de lúpulo da Bélgica. A cidade fica praticamente no meio do caminho entre Mont des Cats e Westvleteren, e a distância pode ser facilmente percorrida de bicicleta. As estradinhas da região ficam repletas de ciclistas locais e turistas, muitos deles pedalando em direção ao famoso Café In de Vrede, em meio a fazendas e plantações de lúpulo.

Mont des Cats

Basta atravessar a fronteira com a França e chega-se facilmente à Abadia Mont des Cats. A abadia, que desde o século retrasado produz queijo e também já produziu cervejas, resolveu reviver a tradição. Os irmãos da Notre Dame de Scourmont (Chimay) acabaram dando uma mãozinha e são eles que fabricam a cerveja Mont des Cats, que, como não é produzida na abadia de Mont des Cats, não pode receber o selo trapista.

Mont des Cats

Em frente à abadia, fica o Auberge du Mont des Cats. Com um restaurante e uma lojinha de produtos trapistas, é o único lugar oficial para se provar a Mont des Cats. O restaurante ainda serve pratos como frango na cerveja e sanduíches. A lojinha vende também os queijos produzidos pelos monges, que estão entre os melhores da França.

Auberge du Mont des Cats

Foi da abadia de Mont des Cats que saíram monges fundadores de vários mosteiros da Europa, entre eles o de Koningshoeven (produtor da La Trappe) e de Sint Sixtus (Westvleteren).

St. Bernardus

No século XIX, as leis francesas tornaram-se mais severas em relação a instituições religiosas, de forma que os monges da Mont des Cats começaram a procurar terras fora da França para tocar seus negócios. Uma de suas primeiras medidas foi se instalar em uma fazenda na região de Watou e batizá-la de Refuge Notre Dame de Saint Bernard, onde passaram a produzir queijo – uma de suas fontes de renda. Na década de 1930, a Mont des Cats voltou a produzir queijo em seu mosteiro, encerrando o contrato com a Sint Bernardus, que continuou suas atividades como queijaria.

Em 1946, a Sint Bernardus foi contratada pela abadia de Sint Sixtus para fabricar suas cervejas em larga escala. Em 1992, a Sint Sixtus resolveu não renovar o contrato, uma vez que se iniciavam as negociações referentes ao uso do termo “trapista”. Em 1997, com a criação da Associação Internacional Trapista, o selo trapista foi oficializado.

Plantações de lúpulo da St. Bernardus

A fábrica da St. Bernardus ainda utiliza os mesmo tanques desde que iniciou sua produção para a Sint Sixtus. Até hoje, a St. Bernardus produz sua Prior 12 com a mesma receita que utilizava para fabricar a Sint Sixtus 12. O curioso é que a St. Bernardus ainda utiliza a levedura original da Westvleteren, enquanto a abadia de Sint Sixtus hoje utiliza levedura da Westmalle.

Hoje, além de produzir cerveja, a St. Bernardus oferece também hospedagem: a Brouwershuis. Como o próprio nome indica, trata-se da casa onde vivia o antigo mestre-cervejeiro. O Bed & Breakfast, vizinho à cervejaria, conta com oito quartos e uma área comum, onde os hóspedes podem abrir as geladeiras e se servir dos sete rótulos da marca. O preço da cerveja? Você decide quanto quer pagar.

Geladeiras self-service na Brouwershuis

A visita à St. Bernardus custa 12,50 euros e dá direito a degustação de dois rótulos, além de um kit com quatro garrafas e uma taça. Da sala de degustação, pode-se ver o Mont des Cats, onde fica a abadia. Estrategicamente localizada ao lado da cervejaria, está a plantação de lúpulo da St. Bernardus, que fica mais interessante entre os meses de agosto e outubro, quando está pronta para a colheita.

Sint Sixtus – Westvleteren
Entrada do In de Vrede

Entre as cervejas belgas mais desejadas e procuradas pelos aficionados estão as produzidas pela Abadia de Sint Sixtus, em Westvleteren. Suas garrafas sem rótulos são identificadas somente pelas cores das tampinhas: a verde é a Blond, uma cerveja de alta fermentação surpreendentemente lupulada para uma blond belga, fazendo jus à região; a azul é a 8, uma ale belga escura com 8% de abv; e a amarela, a grande estrela, é a 12, uma ale belga escura com 10,2% de álcool.

Westvleteren 12

Constantemente consideradas as melhores cervejas do mundo, levam milhares de turistas cervejeiros ao café In de Vrede, localizado em frente ao mosteiro de Sint Sixtus. O In de Vrede é o único estabelecimento que tem autorização para vender as cervejas Westvleteren. Há ainda um sistema de encomenda por telefone (sem delivery, que fique claro – o cliente busca a encomenda no mosteiro), mas a possibilidade de conseguir as cervejas dessa forma é remota. Melhor ir até o In de Vrede, que, além de servir as cervejas, esporadicamente vende six-packs ou kits em sua lojinha, onde também é possível comprar queijos trapistas de outras abadias e camisetas do café.

Sorvete de Westvleteren 12

Quem tem a sorte de visitar o In de Vrede na hora certa pode adquirir uma quantidade limitada dos produtos (o lado bom é que os vendedores deixam claro que não são lá muito atentos à fisionomia dos clientes), com o compromisso de não os vender (o que é alegremente ignorado em toda a Bélgica e Holanda, e até por aqui). O café também serve porções de queijos trapistas, sanduíches e saladas. Para a sobremesa, o sorvete feito com Westvleteren 12 é um dos mais pedidos.

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Monge arrumando a loja da La Trappe.

Roteiro Trapista – Introdução

Monge arrumando a loja da La Trappe.
Monge arrumando a loja da La Trappe

Uma das coisas que mais impressionam turistas provenientes das Américas é a íntima ligação que existe entre cerveja e religião na Europa. Sabendo um pouco mais da história desses mosteiros, fica mais fácil entender por que existem tantas cervejas produzidas por ordens religiosas na Europa.

Existem várias ordens religiosas dentro da Igreja Católica, sendo cada uma delas regida por uma série de valores próprios. Algumas ordens pregam a pobreza extrema e a mendicância, enquanto outras pregam o afastamento total da vida não monástica, com dedicação exclusiva à oração e meditação. Já outras ordens, especialmente as que seguem as leis de São Benedito, acreditam no lema “Ora et Labora” como meio de vida: rezar e trabalhar para garantir o sustento do mosteiro e da comunidade ao seu redor. Esses mosteiros produzem diversos tipos de produtos desde a Idade Média e sempre estiveram ligados às mais diversas atividades econômicas. Cada mosteiro se adequava à realidade de sua região, e suas atividades econômicas resultavam do que a terra fornecia. Os monges produziam vinho, cerveja, queijos e pães, mas até engenharia e metalurgia estavam entre as atividades que eles dominavam.

A mais antiga dessas ordens é a dos Beneditinos. Fundada no século VI, acabou se transformando em uma das instituições mais importantes da Idade Média. Como viviam enclausurados dentro dos mosteiros, trabalhando, rezando e estudando, os monges gradualmente se tornaram uma força econômica e tecnológica muito importante. O voto de pobreza e austeridade foi sendo deixado de lado, e os mosteiros e igrejas da ordem tornavam-se cada vez mais luxuosos. Crescia cada vez mais a influência política dos abades, que muitas vezes eram mais poderosos que os nobres locais.

Mosteiro Beneditino de Maredsous
Mosteiro Beneditino de Maredsous

Em 1098, insatisfeitos com esse distanciamento dos ensinamentos de São Benedito, monges franceses resolveram fundar um novo mosteiro perto da cidade de Cîteaux (Cistercium, em latim). Esse mosteiro deu origem a uma nova ordem, a dos cistercienses, que pretendia seguir novamente as regras de São Benedito ao pé da letra. Os monges se fecharam em seus mosteiros, trabalhando e estudando. Gradualmente, tornaram-se uma força econômica e tecnológica muito importante. O voto de pobreza e austeridade foi sendo deixado de lado, e os mosteiros e igrejas da ordem tornavam-se cada vez mais luxuosos. Crescia cada vez mais a influência política dos abades, que muitas vezes eram mais poderosos que os nobres locais. Sentiu o déjà-vu?

Em 1664, insatisfeitos com esse distanciamento dos ensinamentos de São Benedito, monges franceses do Mosteiro de La Grande Trappe resolveram reformar a ordem e passaram, novamente, a seguir ao pé da letra as regras beneditinas. Porém, somente em 1892 é que as ordens foram formalmente separadas e passaram a ser reconhecidas como ordens distintas. Surge então a “Ordem dos Cistercienses Reformados de Estrita Observância”, também conhecida como Ordem Trapista.

Na Bélgica, existem diversas cervejas denominadas “de abadia”. São cervejas cujas origens estão associadas a algum mosteiro e que, hoje, em geral são produzidas por cervejarias comerciais laicas, com autorização desses mosteiros. Cervejas como Leffe (AB-InBev) e Maredsous (Duvel-Moortgat) são produzidas em fábricas sem qualquer ligação com seu mosteiro de origem. Para utilizar o nome e a receita dos mosteiros, as cervejarias lhes pagam royalties. A renda daí resultante mantém os mosteiros, que servem essas cervejas alegremente em seus cafés.

Monge supervisionando os trabalhos na Orval.
Monge supervisionando os trabalhos na Orval

Existem ainda as cervejas trapistas, produzidas por monges dentro de mosteiros que não vendem o direito de uso de seu nome para outras empresas. Nesse caso, os monges preferem botar a mão na massa, seguindo os preceitos de São Benedito. Mosteiros trapistas de todo o mundo fabricam diferentes tipos de produtos: sabão, produtos de limpeza, cerveja, pão, queijo… E, para se obter o selo trapista, devem-se seguir três regras:

1-      O produto deve ser produzido dentro do mosteiro por monges ou sob sua supervisão;

2-      O mosteiro deve controlar a atividade comercial, que deve ser compatível com os valores da ordem;

3-      O objetivo da atividade não deve ser o lucro, e sim a manutenção do mosteiro. O eventual lucro deve ser utilizado em obras sociais mantidas pelo mosteiro.

Sint-Sixtusabdij, mosteiro da Westvleteren
Sint-Sixtusabdij, mosteiro da Westvleteren

Atualmente, existem oito cervejarias no mundo que podem usar o selo trapista em seus produtos. Existe ainda uma cerveja que pode ser considerada trapista, mas que, apesar de constar no site da Associação Internacional Trapista, não pode utilizar o selo em seus rótulos: a Abadia de Mont des Cats, na França, que vende uma cerveja produzida pela cervejaria de Chimay, da Bélgica. O mosteiro já usa o selo trapista em seus queijos e, ao contrário do que se especula, não demonstra interesse em incluir o selo na cerveja, uma vez que precisaria construir uma cervejaria dentro do mosteiro.

A mais nova cervejaria trapista é a do Mosteiro de Engelszell, na Áustria. Eles, que já usavam o selo trapista em seus licores, acabaram de receber autorização da Associação Internacional Trapista para usar o selo também em suas duas cervejas: Gregorius, já disponível em alguns lugares do mundo, e Benno, que ainda não foi lançada comercialmente. É a primeira cervejaria trapista fora dos Países Baixos.

Das outras sete cervejarias trapistas, uma está na Holanda e seis estão na Bélgica. Em nossa última viagem, visitamos seus respectivos mosteiros e cafés. Eles são bem diferentes entre si, e quase todos valem a visita. Visitamos ainda a Abadia de Mont des Cats, na França, e a fábrica da Sint Bernardus, que tem sua história intimamente ligada às cervejas trapistas. Além disso, tivemos a oportunidade de experimentar a Gregorius. Nos próximos posts, falaremos um pouco mais sobre tudo isso.

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Valendo!

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Começa hoje nossa viagem para a Bélgica (com um pulinho na Holanda). Vamos passar por mais de 40 bares, cervejarias, restaurantes, museus e destinos relevantes para quem gosta de cerveja. Criamos este blog para registrar essas e outras visitas.