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sorvete de rapadura + créme brûlée + Class of '88 Barley Wine

Queremos harmonizar!

Quando vamos aos nossos restaurantes preferidos, é comum passarmos um bom tempo conversando sobre os pratos e fantasiando sobre as harmonizações que gostaríamos de fazer com eles. Às vezes, o inverso também ocorre: compramos alguma cerveja incrível e, ao bebê-la em casa, de pijama, no sofá, ficamos imaginando o quanto a experiência poderia ser ainda mais fantástica se a cerveja fosse acompanhada de um prato à altura. Sentíamos que estávamos fadados a usufruir das coisas de que mais gostamos, cerveja e gastronomia, em momentos separados. Para agravar mais um pouco a situação, “harmonização” é um dos assuntos cervejeiros que mais nos interessam. Pesquisamos bastante sobre isso e, sempre que possível, fazemos testes com pratos simples que preparamos, além de queijos e doces que trazemos para casa. Mas nada disso aplacava nossa vontade de harmonizar determinadas cervejas com pratos elaborados com o mesmo nível de excelência. Foi então que resolvemos finalmente colocar um certo “projeto” em prática. Pesquisamos alguns restaurantes que não cobram taxa de rolha e decidimos levar cervejas para testar nossas harmonizações dos sonhos. Para começar, escolhemos o restaurante de culinária sertaneja Mocotó.

dadinhos de tapioca + queijo coalho + Colorado Indica

A especialidade do Mocotó, além de comida nordestina, é cachaça. Mas, se assim como nós, seu negócio é mesmo cerveja, o Mocotó também oferece algumas opções. A Colorado Indica é, sem dúvida, a melhor delas, especialmente levando-se em conta o cardápio do restaurante. Para “abrir o apetite”, pedimos queijo-de-coalho dourado na manteiga de garrafa com melado, dadinhos de tapioca com molho de pimenta agridoce, além de uma porção de torresmo, que não saiu na foto porque só chegou depois e, bom, meu autocontrole foi 100% utilizado na espera por essa foto. A Colorado Indica é uma IPA com teor alcoólico de 7% e rapadura em sua composição. Quer dizer, como se não bastasse o malte tostado se fundir ao queimadinho do queijo, há ainda a rapadura, presente no melado e na cerveja (ok, a rapadura não é exatamente perceptível na Indica, mas a cerveja é deliciosamente adocicada, ainda que amarga). O dadinho de tapioca vem acompanhado de molho de pimenta. Precisa falar mais alguma coisa? Talvez precise, porque há quem diga que não se deve harmonizar pimenta com IPA, porque o lúpulo (e o álcool) intensificam a “picância”. Mas, se eu não gostasse de comida picante, não pediria pratos condimentados, né? É claro que deu certo. A Indica também acompanhou muito bem o torresmo. Além da semelhança do perfil tostado entre prato e cerveja, o teor alcoólico intermediário da Indica é ideal para atravessar a gordura do torresmo, sem impedir os grandes goles que um petisco salgado como esse pede. carpaccio de carne de sol com tomate-cervea e pimenta biquinho + pães deliciosos

Na sequência, pedimos carpaccio de carne-de-sol com pesto de coentro, tomate-cereja e pimenta biquinho (já experimentaram comer tomate-cereja e pimenta biquinho ao mesmo tempo, numa garfada só? Como é bom!) e tapioca de carne-seca com requeijão do norte e crocante de mandioquinha. Infelizmente não tiramos foto que preste da tapioca, mas não há uma vez que eu vá ao Mocotó e esse prato fique de fora da orgia gastronômica.

Chegou a hora da sobremesa. No caso do Mocotó, eram justamente as sobremesas que, a cada visita, faziam-nos divagar sobre possíveis harmonizações. O créme brûlée com doce de leite e umburana e o sorvete de rapadura foram nossas inspirações na escolha da cerveja que levamos ao restaurante. A Class of  ’88 Barley Wine, da North Coast Brewing Company, é uma cerveja comemorativa dos 25 anos de três cervejarias: Rogue, Deschutes e North Coast. Cada cervejaria criou uma receita de barley wine, com base no livro The Essentials of Beer Style, de Fred Eckhardt, lançado também em 1988, mesmo ano em que as três cervejarias foram fundadas. Além disso, os cervejeiros das três cervejarias participaram, juntos, das três brassagens.

Mas vamos à harmonização. A Class of ’88 da North Coast é uma American barley wine lupulada, com 10% de teor alcoólico, perfil caramelado e frutado típico do estilo, além de notas resinosas e terrosas provenientes dos lúpulos. Quando pensamos em harmonizar a Class of ’88 com o créme brûlée, nosso foco era o óbvio: cerveja com características carameladas e tostadas com uma sobremesa cuja marca registrada é uma crosta caramelizada e queimadinha. Eis que fomos surpreendidos por um elemento inesperado: a cerveja não só harmonizou por semelhança com o doce de leite e a crosta do créme brûlée, como também realçou deliciosamente a umburana utilizada na sobremesa! Talvez tenham sido as notas resinosas do lúpulo, talvez o adocicado do malte – que, assim como a umburana, pode lembrar baunilha -, mas o fato é que a combinação trouxe novas percepções, tanto para a cerveja quanto para a sobremesa. A Class of ’88 também deu muito certo com o sorvete. O teor alcoólico e a textura licorosa da cerveja são suficientemente potentes para a gordura e doçura da massa, mas o ponto alto mesmo foi o contraste da cerveja com os pedaços de rapadura, que têm um toque azedinho delicioso! Ai, ai, comida e cerveja realmente me fazem feliz.

sorvete de rapadura + créme brûlée + Class of '88 Barley Wine

Se você também gosta de harmonizar comida e cerveja, que tal incentivar os estabelecimentos a oferecerem cartas mais extensas e adequadas ao cardápio? Quando for a algum bar ou restaurante e fizer alguma harmonização, seja com cervejas do cardápio ou levadas por você, publique uma foto no Instagram ou Facebook e use também a hashtag #queremosharmonizar, como fizemos aqui.

Para encerrar, algumas sugestões a quem tiver interesse de levar cerveja aos restaurantes: 1) entre em contato com o estabelecimento de antemão. As regras quanto a levar a própria bebida são individuais e vários estabelecimentos mudam a postura de tempos em tempos. Alguns lugares cobram taxa (que pode variar de R$25 a R$100), mas não sabemos ainda como será a aceitação da cerveja nesses casos; 2) não leve cerveja que já faça parte da carta do restaurante, e procure consumir também alguma bebida vendida pelo estabelecimento (nem que seja água); 3) tenha bom senso. O propósito não é “se dar bem”, e sim proporcionar a si mesmo uma experiência plena.

Barley's Angels

Barley’s Angels Brasil

Barley's Angels

Fiquei sabendo da existência das Barley’s Angels no início deste ano, em um episódio do videocast norte-americano New Brew Thursday, que tinha como convidada a Denise Ratfield, da Stone Brewing. Durante o episódio, Denise falava (em 5:10 e 9:00) sobre duas organizações voltadas a promover a cerveja artesanal entre as mulheres, a Pink Boots Society e a Barley’s Angels:

 

Sempre senti que há bem pouco espaço para as mulheres no cenário cervejeiro brasileiro, então me interessei pela proposta dessas organizações imediatamente. Pesquisei um pouco sobre elas e achei ainda mais interessante. Como estava com viagem marcada para os EUA, resolvi que tentaria um encontro com a responsável por alguma seção dos lugares por onde eu passaria. Acabei descobrindo que a primeira seção da Barley’s Angels foi fundada em Portland, uma das cidades que eu visitaria. Assim, decidi entrar em contato com a precursora da Barley’s Angels, Christine Jump. Admito que fiquei surpresa com resposta rápida e prestativa que recebi. Christine combinou de me encontrar para conversarmos sobre a organização e se ofereceu para me levar a alguns destinos cervejeiros da cidade (assunto para outro post!).

Já em Portland, Christine me contou sobre sua trajetória no mundo das cervejas artesanais, falou sobre a Barley’s Angels de forma geral e especificamente sobre algumas seções. Conversei com ela a respeito da minha vontade e, ao mesmo tempo, meu receio de trazer a organização para o Brasil. Se por um lado foi inspirador conhecer alguém como ela, por outro me deu um certo desânimo perceber o quanto a situação é mais complicada aqui do que lá e nos outros lugares onde a Barley’s Angels está presente. Em países como EUA, Canadá, Inglaterra e Alemanha, por exemplo, parece haver mais espaço para a discussão de questões de gênero, enquanto no Brasil essas questões não são sequer reconhecidas e costumam ser tratadas como “mimimi”.

Acontece que, depois de ler esta entrevista (que traduzi aqui), percebi que, além de compartilhar da visão da Christine e já ter passado por muitas situações absurdas no meio cervejeiro, tenho visto cada vez mais mulheres descontentes com a forma como são tratadas nesse universo. São cervejarias que nos veem como consumidoras de segunda linha, estabelecimentos que nos ignoram, fóruns cervejeiros e grupos de discussão que nos hostilizam, indivíduos que nos tratam com condescendência. E isso acontece no mundo todo; a diferença é que, em alguns lugares, já não há mais tanta resistência em admitir essa situação, seja por razões progressistas ou esperteza comercial. Tapar os olhos e fingir que nada disso acontece é apenas um mecanismo de defesa.

Mas, afinal, o que é e o que propõe a Barley’s Angels? A Barley’s Angels é uma organização internacional, composta por dezenas de seções ao redor do mundo, criada a partir de outra organização, a Pink Boots Society. Enquanto esta última reúne profissionais da indústria cervejeira, a Barley’s Angels tem como foco consumidoras de cerveja artesanal. Nosso intuito é reunir mulheres que buscam um ambiente acolhedor para explorar e aprender sobre cervejas artesanais, além de propiciar a cervejeiros(as) e proprietários(as) de bares e restaurantes uma plataforma para demonstrarem seu compromisso em proporcionar experiências confortáveis para suas consumidoras. Em nossa página no Facebook, anunciaremos encontros e eventos dedicados às mulheres e à cerveja artesanal. Homens podem nos apoiar curtindo nossa página e divulgando os encontros para mulheres. Estabelecimentos e empresas que quiserem colaborar com a organização podem entrar em contato pelo e-mail barleysangelsbrasil@gmail.com. Nosso objetivo é fortalecer a presença feminina no mercado cervejeiro.

Paleta de degustação

Les 3 Brasseurs

Les 3 Brasseurs - exterior

Já que o bar da BrewDog foi inaugurado em São Paulo esta semana, decidimos que este seria o melhor momento para publicarmos nosso post sobre a primeira filial brasileira da rede de brewpubs francesa Les 3 Brasseurs. Se você não tem ânimo para ficar um tempão na fila e disputar lugar no balcão do bar mais aguardado da história, a alternativa é aproveitar para conhecer a antiga novidade cervejeira de São Paulo, inaugurada no final de novembro.

Visitamos a Les 3 Brasseurs em duas ocasiões diferentes, ambas no início de dezembro. O lugar é legal, mas não deixa de ter um clima de restaurante de rede. A decoração segue o padrão das outras filiais pelo mundo. A cozinha da cervejaria fica logo na entrada da casa, separada por um vidro. Cada brassagem produz até 1000 litros, e as chopeiras são ligadas diretamente aos tanques, no segundo andar da casa. O preço das cervejas varia de R$6,50 a R$10 (copo de 300 ml), e são servidos também em canecas de 500 ml (de R$11 a R$16), 1 litro e até em chopeiras de 3 ou 5 litros levadas à mesa.  Também é possível optar pela paleta de degustação (R$17).

Paleta de degustação

Quatro cervejas são produzidas regularmente pelo brewpub, seguindo as receitas originais da matriz, com pequenas adaptações para agradar o paladar brasileiro. Em outras palavras, são um pouco menos amargas que as versões gringas. A Blonde, apesar de ser descrita pelos garçons como pilsen, é uma ale. Tem 4,7% de teor alcoólico, 22 IBU (unidade de amargor), e é servida de duas maneiras diferentes: caldereta de 250 ml (com o nome de Chopp 250) ou taça de 300 ml, curiosamente com o mesmo preço. A Blanche é uma witbier, com toques cítricos e leve acidez, melhor que a maioria das cervejas do estilo produzidas no Brasil. A Ambrée é uma pale ale, com um toque interessante de açúcar queimado, caramelo e frutado leve, mas falta personalidade. A Itaim é receita exclusiva do Brasil. Trata-se de uma pale ale produzida com três técnicas de lupulagem e lúpulo Cascade. Ainda assim, a lupulagem ainda nos pareceu muito discreta e, nos dois dias em que visitamos o bar, a Itaim apresentava um aroma desagradável de enxofre. Além das quatro cervejas de linha, a promessa é produzir sazonais de tempos em tempos, possivelmente mais interessantes para o público cervejeiro.

Les 3 Brasseurs - interior

Enquanto visitávamos a cozinha, os tanques de maturação, o laboratório e o depósito de maltes da cervejaria, Tom nos contou um pouco sobre como começou a trabalhar com cerveja. Cervejeiro caseiro daqui de São Paulo, Tom morou na Alemanha de 2006 a 2012. Lá, acabou fazendo o curso de cervejeiro e, quando voltou ao Brasil, foi contratado para implantar a primeira loja da rede Les 3 Brasseurs por aqui. Ficamos sabendo, também, que a rede se preocupa em difundir a cultura cervejeira e uma das iniciativas que fazem nesse sentido é promover um concurso internacional de cerveja, em que cervejeiros caseiros podem inscrever suas cervejas em cada uma das filiais, e a escolhida em cada casa segue para um concurso internacional. As cervejas ganhadoras em cada filial são produzidas como sazonais locais.

Les 3 Brasseurs - Tom Silva

O cardápio é extenso e se espelha no cardápio padrão da rede. Uma das novidades para as mesas brasileiras são as flammes, um intermediário entre pizza e crepe, com recheios variados. Pratos com inspiração francesa e belga também fazem parte do cardápio. Aos sábados, há buffet de cassoulet, a versão francesa da feijoada. Na primeira das nossas visitas, experimentamos apenas Carbonnade Flamande, o hambúrger Especial 3B e a flamme São Paulo, com queijo branco, peito de frango, pimentão grelhado, molho barbecue, feijões vermelhos, linguiça defumada e tabasco.

Especial 3B
Especial 3B

Para terminar, cabe aqui uma comparação com o único outro brewpub de São Paulo, a Cervejaria Nacional, nossa segunda casa. É bom lembrar que, há quase três anos, quando a Nacional abriu, as cervejas ainda não chegavam perto do que são atualmente. É necessário tempo para que as coisas se acertem. Mesmo hoje, nem todas as cervejas da Nacional são empolgantes. Algumas são bem contidas, e possivelmente se destinam a um público que busca apenas tomar alguma coisa diferente, assim como as cervejas de linha da 3 Brasseurs. Ainda assim, pretendemos voltar ao bar ocasionalmente, na expectativa de algo que nos surpreenda.

IPA Day 01

Retrospectiva 2013 – Festivais Cervejeiros no Brasil

No início do ano, acabamos perdendo o Festival Brasileiro da Cerveja, em Blumenau. Foi por um ótimo motivo, mas, depois disso, decidimos que, durante este ano, viajaríamos pelo Brasil para conferir o maior número possível de festivais cervejeiros. Como não escrevemos sobre todos eles, decidimos fazer uma retrospectiva, agora que o ano acabou. Avaliamos fatores como preço da entrada, preço das cervejas, variedade de rótulos, novidades, serviço (comida, água, banheiros, etc.) e outras atrações.

IPA Day 01
KombIPA, a Kombi da Bodebrown presente na maioria dos festivais. Na foto, IPA Day Brasil.

Brasil Brau/Degusta Beer, junho, São Paulo

Ingresso: R$40 para um dia, R$70 para dois dias e R$90 para três dias. Cervejas pagas à parte.

A Brasil Brau era, a princípio, uma feira voltada aos produtores de cerveja. Com o crescente interesse dos consumidores que não trabalham necessariamente com cerveja, criou-se um evento paralelo, o Degusta Beer.

Foram apresentados alguns lançamentos no evento, como The White IPA e Matanza IPA, da Dortmund. A importadora Bier & Wein apresentou pela primeira vez as cervejas americanas que foram incorporadas ao seu portfólio e servia copos de degustação por R$2. A importadora Tarantino trouxe uma série de cervejas americanas que não entraram no seu portfólio, mas serviram como uma vitrine para cervejarias americanas conhecerem o mercado brasileiro. Infelizmente essas cervejas estavam bem caras e sem possibilidade de degustação. A importadora Lorch apresentou as cervejas japonesas Hitachino Nest, vendidas por dose ou garrafa.

A praça de alimentação era bem limitada, mas havia vários pontos com galões de água para beber e lavar os copos.  Aconteceu também um ciclo de palestras e mesas redondas.

A feira aconteceu no Espaço Transamérica, que é afastado do centro da cidade e tem transporte público dificultado. Sem estação de metrô por perto, quem optou por usar a CPTM sofreu com os trens lotados. O estacionamento no local era muito caro e a fila de táxi ficava bem demorada no fim do dia.

Infelizmente não conseguimos, até agora, encontrar nossas fotos do Degusta Beer

IPA Day Brasil, agosto, Ribeirão Preto

Ingresso: a partir de R$90 (primeiro lote). Cerveja à vontade inclusa no ingresso.

Certamente o festival de que mais gostamos, tanto que dedicamos um post só a ele. Em fevereiro acontecerá em São Paulo o festival A Pint With the Queen, dos mesmos criadores do IPA Day Brasil. Nossos ingressos já estão comprados.

IPA Day Brasil 02
IPA Day Brasil

Minas Mixbeer, início de setembro, Belo Horizonte

Ingresso: R$20 por dia. Cervejas pagas à parte.

Apesar de ser um dos principais estados produtores e fomentadores das cervejas artesanais, o Minas Mixbeer ainda atraiu pouca gente de fora. Apesar disso, algumas distribuidoras presentes ofereceram novidades, caso das curitibanas Morada e Dum (que só foram chegar em São Paulo alguns meses depois). A Bier & Wein novamente vendia suas cervejas em doses e garrafas e deu para conhecer praticamente todo o portfólio da importadora, sem ficar pobre ou bêbado demais. As cervejarias mineiras estavam presentes, o que nos possibilitou experimentar as cervejas da Inconfidentes e degustar a Petroleum da Dum e da Wäls lado a lado.

Havia boas opções de comida a preços variados. Restaurantes com tradição cervejeira, como Rima dos Sabores e Stadt Jever, ofereciam seus pratos preparados ali mesmo. Paralelamente ao festival, aconteceu um congresso voltado a quem trabalha com cerveja, assim como algumas palestras abertas ao público.

Durante o dia, o dj tocou só músicas em vinil, passeando por diversos estilos, mas basicamente rock. Aconteceram shows de bandas cover de rock e blues.

Minas Mixbeer
Minas Mixbeer

Beer Experience, final de setembro, São Paulo

Ingresso: na área comum, a partir de R$40 para sexta e domingo e R$50 para sábado (se comprados com um mês de antecedência) + taxa de inconveniência (tentamos comprar em ponto de venda, mas o sistema não funcionava). Na área VIP da Cervejaria Karavelle, R$150 para sexta e domingo e R$180 para sábado.

O Beer Experience foi crescendo a cada edição, e resolveu crescer mais ainda na edição de 2013. O festival ocorreria, inicialmente, em quatro cidades diferentes: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília. Ainda no início da divulgação, a edição de BH foi cancelada. O mesmo aconteceu com a edição de Brasília, com o agravante de que o cancelamento se deu poucos dias antes da data do evento. A edição de São Paulo e do Rio foram inundadas de críticas.

O festival aconteceu na Bienal, no Parque do Ibirapuera. A localização é central em São Paulo e muitas linhas de ônibus passam por ali, então chegar não foi um grande problema. A organização garantiu que haveria táxis na saída, mas isso não aconteceu no primeiro dia de festival, e voltar para casa foi uma luta.

Beer Experience 01
Fila de entrada infinita para o Beer Experience.

Este ano, o foco do Beer Experience deixou de ser a cerveja e passou a ser as atrações musicais, o que deixou o evento com mais cara de balada que de festival cervejeiro (incluindo-se o preço abusivo das cervejas, comidas e água – garrafinha a R$4!). O único estande com preços melhores que os de bares e lojas era o da importadora Best Beers. Poucas novidades foram apresentadas no festival, e algumas delas – como a 1000 IBU da Cervejaria Invicta e os chopes da Brooklyn – já estavam disponíveis no Empório Alto dos Pinheiros no início da semana do festival.

As atrações musicais foram de peso (ainda que não de nossa preferência), mas o som não ajudou. A Bienal definitivamente não é um lugar com boa acústica, e o som ficava todo embolado. Isso aconteceu com o show do Matanza, que é uma banda bem pesada e barulhenta, e aconteceu com os Demônios da Garoa, banda bem mais tranquila. Não comparecemos ao show do Seu Jorge, no sábado, mas, pelo que lemos, foi o dia mais caótico em todos os aspectos, especialmente para quem pagou caro pela área VIP.

Eram poucas as opções de comida e as filas eram demoradas. Não havia lugar pra sentar e a maioria das pessoas comia em pé ou sentada no chão. Os banheiros da Bienal ficaram restritos à área VIP e, para o público geral, havia apenas banheiros químicos, que não foram limpos ou abastecidos durante toda a noite. Para completar, não havia sequer onde lavar a mão, que dirá os copos. Não havia água nas torneiras improvisadas.

Beer Experience 02
Beer Experience

Pelo menos quatro caixas diferentes nos disseram que as fichas de cerveja seriam iguais todos os dias, incentivando-nos (e a outros amigos nossos) a comprá-las para os dias seguintes, para evitar filas. Claramente haviam sido instruídos a proceder dessa forma. Porém, no sábado, ficamos sabendo que as fichas não seriam aceitas. Decidimos que, no domingo, só entraríamos no festival se pudéssemos utilizar nossas fichas. Depois de muita enrolação e discussão, quando estávamos indo embora do Parque do Ibirapuera, um segurança nos ofereceu a pulseira da área VIP como compensação pela pilantragem da organização do evento. Aceitamos, depois que ele nos explicou que não precisaríamos pagar mais pela pulseira e que a circulação entre os espaços era livre. Pelo menos teríamos água à vontade e banheiro decente.

No domingo, havia lugar para sentar na área VIP, mas a comida consistia em um pratinho de plástico com salgados daqueles que se compram na padaria da esquina para festa surpresa da firma. Claro, a cerveja era liberada no camarote, mas era Karavelle (ótimo para quem gosta ou não se importa, mas nós fomos conhecer o novo bar da cervejaria uma semana antes do festival e havíamos considerado apenas a “stout de baixa fermentação” bebível). Ficamos mais na área comum do que no camarote (melhor pagar por cerveja boa do que tomar cerveja ruim de graça), e fomos surpreendidos quando, começado o show dos Demônios da Garoa, a organização resolveu alterar ilegitimamente a regra da livre circulação: ninguém mais poderia beber água ou Karavelle do lado de fora da área VIP, assistindo ao show com os amigos. Para fazer valer a mudança absurda, a equipe de segurança se mostrou disposta a agredir fisicamente os consumidores que não aceitaram a violação de seus direitos. Resumindo: o pior festival “cervejeiro” de todos os tempos.

WikiBier Festival, outubro, Curitiba

Ingresso: A partir de R$22 (primeiro lote).

O WikiBier Festival aconteceu em um grande centro de convenções, no Parque Barigui. O parque é bem bonito, mas o acesso era um pouco limitado por transporte público. O centro de convenções era realmente grande e em hora nenhuma pareceu estar muito cheio, apesar das 4000 pessoas que passaram por lá.

WikiBier Festival 01
Parque Barigui

O evento prometeu uma série de cervejas americanas exclusivas. Como anunciaram que as quantidades seriam limitadas, resolvemos chegar no horário de abertura do festival (11h). Acontece que, na noite anterior, aproveitamos nossa estada em Curitiba para encontrar amigos, o que obviamente incluiu bastante cerveja madrugada adentro. Por sorte, não conseguimos acordar cedo o suficiente para chegar ao WikiBier às 11h da manhã.

Às 13h, quando chegamos, a maioria dos estandes ainda não conseguia servir suas cervejas na pressão. Poucos barris estavam engatados e muitas cervejas só começaram a ser servidas no final da tarde. As cervejas americanas trazidas exclusivamente para o festival foram engatadas aos poucos e custavam R$25 o copo de 200 ml, ou seja, R$125 o litro. Mesmo assim, as torneiras trabalharam durante todo o festival. Porém, pelo menos uma das cervejas americanas anunciadas não foi servida. O atendente tentou nos convencer de que acabou, mas havíamos passado no estande 15 minutos antes e o mesmo atendente havia nos dito que o barril ainda não tinha sido engatado.

WikiBier Festival 02
WikiBier Festival

Na entrada, um guia impresso era distribuído, com todas as cervejas disponíveis, divididas por cervejarias. Esse tipo de coisa é essencial em festivais grandes, e o WikiBier ganha pontos por ter se lembrado disso. Porém, as informações contidas no guia eram incompletas. Muitas das cervejas estavam apenas mencionadas, praticamente sem nenhuma descrição. Além disso, era difícil encontrar em qual estande cada cerveja era vendida. Um mapinha simples teria ajudado muito.

Mas 4000 pessoas precisam se alimentar e, mais uma vez, a alimentação foi uma das dificuldades. Poucas opções e muitas filas. Pelo menos a água era vendida a R$1.

Apresentaram-se bandas de vários estilos, tocando covers. Rolou samba, choro, rock e uma versão que misturava “Behind Blue Eyes”, do Limp Bizkit, com pagode (ninguém que saiba que essa música é do The Who faria uma coisa dessas). A verdade é que, com acústica ainda pior que a do Beer Experience, a música mais atrapalhava do que divertia.

Entre os serviços oferecidos, um chamou a atenção. Existia ali uma área para crianças com monitores, brinquedos e mesas de jogos.

WikiBier Festival 03
Área do WikiBier Festival destinada a crianças e adolescentes.

Mondial de la Bière, novembro, Rio de Janeiro

Ingresso: R$40 + taxa de inconveniência (R$6) antecipado e R$40 sem taxa de inconveniência nem fila na hora (sim, isso mesmo).

Originário do Canadá e com uma “filial” na França, o Mondial de la Bière fez sua estreia no Rio de Janeiro este ano. Mesmo mudando de lugar em cima da hora, o festival foi em um espaço localizado no centro do Rio, ao lado do Sambódromo e com estação de metrô perto.

O principal problema do festival aconteceu assim que chegamos. O ingresso comprado pela internet continha código de barras e deveria ser impresso pelos compradores, o que nos fez presumir que não precisaríamos passar pelo caixa, claro. Mas não foi bem assim. Enfrentamos uma fila de meia hora, porque era necessário trocar o voucher por outro ingresso. O processo era lento e burocrático, e a troca só podia ser feita pela pessoa que efetuou a compra. O funcionário passava o código de barras, conferia a identidade e o cartão de crédito do comprador, que então assinava a troca. Só aí o ingresso era impresso. Para piorar, apenas dois caixas faziam as trocas, e não era possível pegar ingressos dos próximos dias! Mas nada é tão ruim que não possa piorar: não havia espera para quem queria comprar o ingresso na hora, pois todos os outros caixas eram destinados a essas pessoas. O preço? O mesmo de quem comprou antecipadamente, mas sem taxa de conveniência.

Mondial de la Bière 01
Área dos workshops do Mondial de la Bière.

Por causa disso, entramos no festival com 20 minutos de atraso para uma das palestras em que nos inscrevemos. Não que tenha sido um problema, já que todas elas começaram com atraso. Leopoldo assistiu à palestra “Harmonização com comidas brasileiras”, e Carol assistiu a “Harmonização de queijos e cervejas”. A de comidas brasileiras foi um fiasco. A palestrante não havia preparado nada e falava de acordo com imagens que passavam em um slideshow no projetor. Foram degustadas cervejas da marca Diva e Divina, acompanhadas de absolutamente nada. Não houve sequer uma explicação sucinta sobre harmonização. A palestrante fez diversas confusões históricas e conceituais. Um chef francês foi copalestrante, mas falou muito pouco, sendo quase nada sobre cerveja. A palestra de queijos foi muito melhor. Além de servirem boas cervejas (incluindo a Rodenbach Caractère Rouge!), de fato havia queijo, e os palestrantes realmente sabiam do que estavam falando.

As cervejas tinham preços variados. Enquanto algumas cervejarias encararam o festival como oportunidade de mostrar seus produtos, outras fizeram do evento apenas mais um ponto de venda. Entre os lançamentos, destacamos a Wäls Niobium, Colorado Titãs e a Session IPA da 2Cabeças. A importadora Buena Beer trouxe cervejas canadenses e americanas exclusivamente para o festival.

Mais uma vez, havia filas intermináveis para comprar comida. Engraçado que, no espaço em que o Mondial foi realizado, existiam vários boxes fechados, provavelmente com instalações de cozinha. Quando perguntamos em uma das barraquinhas de comida o porquê da demora, nos disseram que a rede elétrica não suportava todos os equipamentos.

A água era oferecida de graça em pontos de hidratação, que serviam também para lavar os copos. Os banheiros eram suficientes e limpos. Na saída, já com o metrô fechado, foi dificílimo conseguir um táxi.

Mondial de la Bière 02
Mondial de la Bière

Como o post ficou enorme, acabamos cortando a parte em que falávamos do que esperamos de um festival cervejeiro. Fica para depois. E que 2014 seja um ano cheio de bons festivais cervejeiros!

Queijos e Cervejas 04

Queijos e Cervejas

Nem sempre um destino cervejeiro é um lugar que vende cerveja. Quem gosta de cervejas artesanais costuma gostar também de outros produtos que seguem a mesma linha, e conhecer boas lojas especializadas é tão importante como saber onde encontrar os melhores rótulos.

A Queijaria é a primeira loja de São Paulo especializada em queijos artesanais brasileiros. Seu proprietário, Fernando Oliveira, viaja pelo país visitando pequenos produtores, em busca de queijos genuinamente artesanais e únicos.

Queijos e Cervejas 01

Em parceria com A Queijaria, fizemos uma noite de harmonização de queijos brasileiros e cervejas brasileiras. Foram cinco os pares degustados:

– Moleson de cabra, da Frialp, Nova Friburgo/RJ + Saison à Trois, parceria entre a 2 Cabeças e a Invicta.

Existem apenas nove queijos tipicamente brasileiros, e o Moleson de Nova Friburgo é um deles. Produzido com leite de cabra, trata-se de um queijo de massa semidura e casca lavada e firme. Maturado por sessenta dias, o Moleson é amanteigado, levemente picante e de intensidade mediana.

A Saison à Trois é uma cerveja delicadamente ácida, condimentada, de amargor médio e final seco. As especiarias presentes na cerveja harmonizaram de maneira complementar com a característica levemente picante do Moleson. A acidez da Saison à Trois mescla-se à mesma característica presente no queijo. Apesar de delicada, a cerveja não “sumiu” diante do Moleson, graças à sua carbonatação abundante, que permite que os sabores da cerveja atravessem a consistência amanteigada do queijo.

Queijos e Cervejas 02
Tudo pronto para começarmos.

– Dionísio, da Fazenda Santa Luzia, Itapetininga/SP + Wäls Trippel, da Cervejaria Wäls.

Massa de frescal produzida com iogurte de leite de vaca, casca lavada com vinho branco e maturação em temperatura mais elevada: esse é o Dionísio. Com casca crocante, lembra queijo francês, só que mais suave. O queijo foi um sucesso tão grande na degustação que não sobrou uma peça sequer na loja. Como pode um queijo frescal se tornar algo tão complexo?

As notas de frutas amarelas e especiarias da Wäls Trippel combinaram muito bem com o Dionísio, cujas características são semelhantes às de um camembert. O azedinho e a terrosidade do queijo também mostraram afinidade com a acidez, efervescência e notas herbáceas da cerveja.

Queijos e Cervejas 03

– Tropeiro, da Fazenda Santa Luzia, Itapetininga/SP + Amburana Lager, da Way Bier.

O Tropeiro é um queijo suave, pastoso e untuoso. Fabricado com leite de vaca, tem sabor levemente adocicado. Na fase de testes para o evento, sequer cogitamos servir o Tropeiro com a Amburana Lager. A afinidade foi descoberta sem querer, quando testávamos o queijo com outras cervejas e acabamos comendo os pedaços restantes com a Amburana Lager, que estava sendo testada com outros queijos.

As notas de amburana presentes na cerveja casaram bem com o Tropeiro, que ora se mostra discretamente adocicado como a cerveja, ora salgadinho, contrastando com ela. Seu alto teor alcóolico mostrou-se compatível com a oleosidade do queijo, e não há muito mais como explicar, de forma teórica, este casamento incrível. Foi um daqueles casos de harmonizações improváveis, que fogem da cartilha e só são descobertas mediante muito teste.

Queijos e Cervejas 04

– Queijo “salaminho”, de Itamonte/MG + Rauchbier, da Bamberg.

Este queijo não tem nome ainda, mas durante os testes, foi apelidado de “salaminho”. Chamá-lo de provolone seria como chamar qualquer stout mais defumadinha de Rauchbier. Fabricado com leite de vaca, o queijo não é só defumado, como também bem seco e repleto de ervas. Em uma degustação às cegas, seria realmente possível confundi-lo com um embutido.

A harmonização, neste caso, é óbvia: a Bamberg Rauchbier é a versão líquida do “salaminho”. Defumado com defumado, não tinha como dar errado. Para melhorar, as notas carameladas da cerveja contrastam com o salgado intenso do queijo, enquanto a carbonatação elevada ajuda a aliviar essa característica.

Queijos e Cervejas 05

– Castanho, da Fazenda Santa Luzia, Itapetininga/SP + Imperial Stout, da Invicta.

Fechando com chavão de ouro, o Castanho é um queijo potente, maturado por três anos. Feito com leite de vaca, tem notas acastanhadas (daí o nome) e massa dura. De sabor adocicado, é perfeito para encerrar a noite.

O queijo casou, ou melhor, namorou, noivou, casou e saiu em lua de mel com a Imperial Stout da Invicta. Realmente feitos um para o outro, já que não há nada melhor que uma Imperial Stout para fechar uma refeição. A cerveja da Invicta é potente, tem alto teor alcoólico, corpo elevado, licoroso e aromas de café e baunilha. Todas essas características destacaram ainda mais as notas acastanhadas do queijo. Foi uma daquelas harmonizações que nos deixam sem saber de onde provêm os sabores que experimentamos. O resultado é um terceiro ser, ou seja, o casamento definitivamente foi consumado!

Queijos e Cervejas 06

Para terminar, tivemos uma agradável surpresa. Um dos participantes era cervejeiro caseiro e trouxe uma de suas cervejas para experimentarmos: a Zigbier Porter. A cervejaria surgiu quando um grupo de colegas de trabalho decidiu arrumar o que fazer enquanto esperava o horário do rodízio para voltar para casa. Compraram todo o equipamento e começaram as brassagens. A cerveja se tornou um sucesso entre amigos e clientes da empresa, e nós ficamos felizes com a oportunidade de conhecer a Zigbier. Além de ser uma boa Porter, cerveja caseira sempre ajuda a aproximar as pessoas. No final do evento, era como se todos os participantes estivessem dividindo uma mesa de bar.

A Queijaria fica na Rua Aspicuelta, 35, São Paulo/SP.

Porchetta + Rauchbier

O Mercado – Festival Gastronômico das Estações

No último domingo, dia 22/9, aconteceu a terceira edição do Festival Gastronômico “O Mercado”, no Modelódromo do Ibirapuera. Ainda que O Mercado não seja exatamente um festival cervejeiro, quatro das 62 barracas ofereciam diversas opções de cervejas artesanais, o que acabou transformando o evento em um destino cervejeiro. Só isso já faria com que o festival subisse no nosso conceito, mas a verdade é que O Mercado nos surpreendeu positivamente em todos os aspectos.

O Mercado 01

Chegamos ao Modelódromo por volta das 13h, e logo descobrimos a barraca da Cervejaria Nacional. Quem me conhece sabe que eu adoro a Mula, a IPA da cervejaria. Resultado: queimamos a largada e pegamos duas antes mesmo de decidir o que iríamos comer. Ainda na barraca da Nacional, descobrimos que a nova sazonal da cervejaria, a Ísis, seria lançada durante o festival, assim que alguma das cervejas fixas terminasse e houvesse onde engatar o barril. No final do dia, voltamos para prová-la. A base da Ísis é uma Mild Ale, refermentada com bastante mel silvestre. Como era de se esperar, tem um aroma incrível e provavelmente fará sucesso entre quem não é muito fã de amargor.

Da barraca da Nacional, seguimos em busca de comida. Começamos com o tempurá de lula com maionese de wasabi, do Miya, e choripán de cancha, do Arturito. Com cumbucas e copos em mãos, precisávamos nos sentar. No centro do gramado, havia duas tendas grandes com pufes e sofás. Não era difícil achar lugar para sentar. O festival contava ainda com mesas espalhadas atrás das barracas, para onde rumamos felizes com nossas iguarias. Assim que chegamos às mesas, começou a chover. Semiprotegidos pelas árvores, ignoramos. Quando acabamos de comer, porém, a chuva já estava forte demais. Nem guarda-chuva salvava. Corremos para uma das tendas e esperamos a chuva passar. Valeu a pena.

O Mercado 02

Fomos comprar mais fichas e passamos na barraca da Bamberg. Como ainda tínhamos R$5, aproveitamos para pegar uma Schwarzbier. Depois de enfrentar a fila do caixa (que andava rapidamente) e já munidos de um bom estoque de fichas, resolvemos testar uma harmonização. Optamos pela porchetta defumada à pururuca com molho de cachaça e jabuticaba, da Charcutaria, + Bamberg Rauchbier. Não tinha como dar errado, e realmente ficou perfeito. O defumado da Rauchbier obviamente combinou com o defumado da carne, enquanto a característica caramelada da cerveja harmonizou com o molho doce do prato.

Porchetta + Rauchbier
Porchetta + Rauchbier

Aí achamos pertinente fazer uma dieta e pegamos um cebiche de camarões com peixe branco em suco de tomate com ervas frescas, da Cebicheria Gonzales, e um vinagrete de polvo, da Neka Gastronomias. Para acompanhar a dieta, exercício: caminhamos até a barraca BEERD, onde encontramos a Founders Pale Ale, que caiu bem com nossos pratos light. Aproveitamos para dar mais uma passada na Bamberg e pegar uma Alt.

Já mais magros, descobrimos a porção de porco no rolete com farofa, vinagrete e torresmo, da Itaici Eventos. Ou seja, tivemos que voltar à Bamberg. Como não queríamos, a princípio, repetir cerveja, pegamos uma Bambergerator. A doppelbock combinou bem com o porco, mas o torresmo pedia uma Rauchbier. Talvez devêssemos ter harmonizado a porchetta com molho de jabuticaba com a Bambergerator, e deixado a Rauchbier para o porco com torresmo.

Bambergerator

Para saborear essas delícias, seguimos para uma das tendas. Por sorte, logo que nos sentamos, começou a apresentação da Gastromotiva, uma associação sem fins lucrativos que oferece cursos profissionalizantes em gastronomia para jovens de baixa renda, inclusive de outros países da América Latina. Achei o projeto incrível e fiquei bem feliz em conhecê-lo.

Porchetta
Porchetta

Quando a apresentação acabou, finalmente conseguimos um cardápio do festival. Eis que vemos a Cacau IPA, da Bodebrown em colaboração com a Stone, listada entre as cervejas da barraca Cervejário. Já não é segredo para ninguém que eu acho essa uma das melhores cervejas do mundo. Corremos para lá, claro. Não havia Cacau IPA. Pelo que entendi, a barraca trouxe poucas garrafas, que já haviam se esgotado. Uma parte de mim morreu naquele instante, mas me esforcei para não me deixar abater. Pelo menos ainda tinha a Double Vienna (com seu rótulo genial) da Morada, que estávamos querendo experimentar havia algum tempo. Pegamos também uma Hi-5, da 2Cabeças, e, sem muita preocupação em harmonizar, fomos atrás de mais comida. Escolhemos camarão e lula na manteiga de alho ao molho de gengibre, da X-Cook e Benihana.

hi-5

Para finalizar, porque ainda tinha gente com fome, pegamos o hambúrguer de cordeiro com maionese de hortelã, da M.A.B. Gastronomia. Estava tão bom que pedimos mais um. E já que a barraca da Bamberg estava logo ao lado, por que não tomar uma Raimundos Helles?

Antes de ir embora, ainda fomos às compras: queijo colonial de SC, do Mestre Queijeiro; gelatinas de cachaça (“sabor de infância”, de acordo com Leopoldo), da Cachaça & Afins; e geleias de abacaxi com jalapeños verdes e goiabada cascão com chipotle, da De Cabrón Pimentas. Durante essa última peregrinação, ainda acompanhamos a brassagem de uma IPA com jiló e boldo, da Lamas Bier, na barraca do Cervejário.

Brassagem da IPA com jiló e boldo.
Brassagem da IPA com jiló e boldo.

Acho importante dizer que havia, ainda, pelo menos três barracas de comida vegetariana e vegana. Além disso, as tendas estavam sempre animadas, com bandas em uma e DJs na outra. Depois que escureceu, o clima dentro delas era de balada. Dancei e tudo! Quanto às barracas de cerveja, a BEERD servia ainda os chopes Madalena e a Meantime Yakima Red; Cervejaria Nacional e Bamberg contavam com todas (ou quase todas) as suas cervejas; e o Cervejário oferecia rótulos da 2Cabeças, Bodebrown e Coruja, além da Saison à Trois, da Invicta + 2Cabeças. Os copos do Cervejário, no entanto, pareciam menores que 300 ml, divergindo do cardápio.

Suite tocando em uma das tendas.
Suite tocando em uma das tendas.

Já em casa, revisando o cardápio do festival para escrever este post, concluí que não experimentei nem metade do que gostaria. O que me deixou com água na boca: Chicharrones (costelinhas muito temperadas e crocantes, acompanhadas de milho andino), da Cebicheria Gonzales; tapioca de gorgonzola com abobrinha, da Aya Cuisine; lanche de linguiça de Bragança artesanal prensada, flambada na cachaça de alambique, coberta com queijos derretidos e creme de alho, da Linguiçaria Real Bragança; ragu de cordeiro com purê de batata e gruyère, queimado no maçarico, do Sal Gastronomia; clam chowder com pão de alho, da APC Brasil; Fila Brasileiro (mignon recheado com gruyère e gorgonzola, emapanado na farinha Panko), do Cão Véio; tapa de camembert de cabra, cebola caramelada em balsâmico e uva fresca, do Torero Valese; bolinho crocante de gengibre com lichia, confitura de rosas e pomelo, da Veri Noda; cannolo tradicional de ricota, frutas, cereja e pistache, da Cannoleria; e pão de cacau e pão jamaicano de banana e nozes, da Miolo Padaria Orgânica, para levar para casa. Aguardo ansiosamente a próxima edição d’O Mercado.

Delirium Café

Delirium Café et col.

Pensou em bar cervejeiro belga, pensou no Delirium Café. Mencionado na maioria dos guias turísticos de Bruxelas, é uma das atrações mais visitadas da cidade e fetiche de cervejeiros, por conta de sua carta de cervejas infinita. O bar alega oferecer 2013 rótulos de todos os cantos do mundo, e tirar uma foto foleando o gigantesco menu é o equivalente cervejeiro da famosa foto “empurrando” a Torre de Pisa.

Leopoldo e o menu infinito
Leopoldo e o menu infinito

Mas, para quem busca mais que um passeio turístico, a visita ao complexo Delirium requer certo planejamento. Hoje, são cinco bares dedicados à cerveja e dois voltados a drinks e destilados, quase todos ocupando o mesmo beco que sai da Rue des Bouchers. Do início da noite até altas horas da madrugada, o beco fica lotado de turistas mais jovens, empunhando copos gigantes de drinks coloridos. Deixando essa grosseria de lado, vamos ao que interessa: os bares cervejeiros.

O beco da alegria
O beco da alegria

O Delirium Café (Impasse de la Fidélité 4, subsolo), bar que começou tudo, é figurinha carimbada no roteiro da maioria dos turistas que visitam Bruxelas. Funcionando em um horário bem mais amplo que o comum na Bélgica, tem clima de balada e é frequentado principalmente por jovens. Durante o dia, é até possível conseguir um lugar para se sentar e folhear com calma a surreal carta de cervejas. Durante a noite, é difícil encontrar espaço até para ficar em pé, e escolher uma das 2013 cervejas vira um martírio, já que suas chances de conseguir um dos poucos menus é bem remota.

Delirium Café
Delirium Café

Dentre 2013 opções, existem várias cervejas de massa, evidentemente. Aqui você encontra, por exemplo, Brahma e Xingu, além de suas similares da Tailândia, África do Sul, Albânia e qualquer país de que possa se lembrar. Claro que não faltam cervejas locais mais comuns, encontradas mesmo aqui no Brasil ou em qualquer boteco belga, como as trapistas, a Duvel ou a Kwak. O grande diferencial é que, no Delirium Café, você também encontra algumas cervejas extremamente raras, mesmo na Bélgica. Conselho: vá munido de uma listinha de edições especiais ou cervejas de cervejarias realmente pequenas e com produções limitadas, para aproveitar o que o bar tem de melhor.

Tap House
Tap House

A Tap House (Impasse de la Fidélité 4, térreo) oferece 25 tipos diferentes de cervejas na pressão, a maioria delas produzida pela Huyghe – fabricante da Delirium. Assim, não traz grandes novidades para o cervejeiro mais experiente. Fica cheia a maior parte do dia e é decorada com propagandas antigas, carroças, barris e tudo que possa estar remotamente relacionado a cerveja.

Hoppy Loft
Hoppy Loft

O Hoppy Loft (Impasse de la Fidélité 4, primeiro andar) é o destino certo para quem busca cervejas de vanguarda. Com sua carta voltada às últimas tendências cervejeiras, oferece opções das mais renomadas cervejarias modernas, com destaque para americanas e seguidoras dessa escola. A carta oferece cervejas cobiçadas e edições especiais, para euforia de quem acompanha as novidades do mundo cervejeiro. Aqui, sim, perde-se um tempo considerável babando no cardápio. O problema é que a maior parte do público que procura o Delirium não está interessada em novidades, e o Hoppy Loft funciona predominantemente como salão de festas. Os horários de funcionamento são bem mais limitados, e o espaço com frequência está fechado para algum evento. Como poucas pessoas ficam muitos dias em Bruxelas, reze para que as agendas batam. Uma boa dica é passar no Delirium Monasterium primeiro, tomar a cerveja do seu santo de devoção e, quem sabe, conseguir um milagre.

Delirium Monasterium
Delirium Monasterium

E por falar em Delirium Monasterium (Impasse de la Fidélité 1), o bar é dedicado às cervejas trapistas e de abadia e tem clima um pouco mais solene. Decorado com vitrais, engana-se quem acha que encontrará aqui as desejadas Westvleteren. Já as outras trapistas são facilmente encontradas em qualquer supermercado e bar da Bélgica, geralmente com preços mais acessíveis que cervejas de fábricas comerciais. Como o Monasterium fica a poucos passos do prédio que abriga o Delirium Café, Tap House e Hoppy Loft, acaba valendo a visita. Porém, com tantos bares e cervejas para conhecer em Bruxelas, definitivamente não é um lugar onde gastaríamos mais de meia hora.

Saideira
Saideira

O Little Delirium (Rue du Marché aux Fromages 9), localizado na região da Grand-Place, é uma versão mais enxuta do bar original. São 30 torneiras de chope e uma carta mais contida (para padrões belgas) de cervejas engarrafadas. Apesar da pouca variedade, pode reservar alguma surpresa ocasional. Não vale desviar do seu caminho para conhecer, mas pode ser uma boa pedida para acompanhar um kebab das lanchonetes da região.

Os bares da Delirium são apenas uma pequena parte do que Bruxelas tem a oferecer em termos cervejeiros. Nos próximos posts, escreveremos sobre outros destinos cervejeiros da cidade, alguns já relativamente conhecidos, outros mais obscuros, mas não menos interessantes.

rumo a Ribeirão Preto

IPA Day Brasil

Primeiro um pouco de blá-blá-blá

IPA é o estilo favorito da maioria dos beer geeks, e é claro que os Estados Unidos têm sua culpa nisso. Desde os anos 1970, os americanos vêm resgatando estilos europeus já esquecidos no Velho Mundo, mas foi nas IPAs que conseguiram criar e consolidar sua escola cervejeira. Com uma gama de lúpulos até então desconhecidos pelo mundo cervejeiro, os americanos passaram a experimentar e, ao reviver um estilo cuja principal característica é justamente essa matéria-prima, acabaram encontrando sua identidade maior. Hoje, o mundo todo produz IPAs de tudo quanto é tipo: Wit IPAs, Black IPAs, Belgian IPAs, Imperial IPAs… São tantos subestilos que o estilo original passou a ser chamado de English IPA, para diferenciá-lo das inúmeras releituras modernas.

lúpulo

Todo beer geek que se preze conhece de cor a lenda das IPAs. No século XVIII, os ingleses precisavam mandar cervejas da Inglaterra para suas tropas na Índia. Para a cerveja chegar em boas condições, os cervejeiros produziam uma versão mais alcoólica e com mais lúpulo. O álcool e o lúpulo protegiam a cerveja de eventuais contaminações durante o percurso, e aos poucos o estilo começou a fazer sucesso também na Inglaterra.

A verdade é que o estilo combina muito bem com a Índia. O lúpulo e o amargor traziam refrescância, enquanto os maltes mais claros (um superavanço tecnológico para a época) faziam uma cerveja mais delicada que as Porters, o estilo mais popular de então. O lúpulo realça a picância dos alimentos, e certamente complementou bem a culinária típica da Índia. E se é bom pra Índia, há de ser bom para a Califórnia e o Brasil.

Tudo isso à vontade, durante um dia inteiro!
Tudo isso à vontade, durante um dia inteiro!

A onda das IPAs nos Estados Unidos, assim como o renascimento das cervejas artesanais, tem suas origens na Califórnia, um estado com um pouco de tudo. O ponto mais alto dos EUA continentais (excetuando-se o Alasca) fica na Califórnia, assim como o ponto mais baixo do lado de cá do Atlântico; a temperatura mais alta de que se tem notícia foi registrada no Death Valley; suas praias são famosas pelo surfe, mas suas estações de ski também não deixam a desejar. Junte a tudo isso a forte influência da cultura mexicana e oriental. Altas temperaturas, montanhas nevadas, comida picante, vontade de tomar cerveja… Praticamente uma Índia do século XVIII!

O estilo ficou tão importante que, em 2011, surgiu o International IPA Day. Todo ano, fãs de cerveja, cervejeiros e blogueiros celebram nesse dia o que se considera o principal estilo de cerveja artesanal. Desde 2012, o pessoal da Academia de Ideias Cervejeiras realiza em Ribeirão Preto a versão brasileira da festa, o IPA Day Brasil. Fomos conferir de perto a festa deste ano. Aproveitamos para conhecer Ribeirão Preto e suas cervejarias (assunto para um futuro post).

rumo a Ribeirão Preto

Rumo a Ribeirão Preto

Chegamos ao festival uma hora e meia após sua abertura, ou seja, desesperados. O desespero aumentou quando nos deparamos com uma longa fila. Pensamentos como “quando eu conseguir entrar não haverá mais Cacau IPA”, “passarei metade da tarde em filas de estandes e banheiros”, “jamais conseguirei lugar para sentar” e “vou passar fome neste festival” dominaram nossa mente. Porém, toda a logística de receber os convidados, pegar ingressos e entregar o copo com o guia do festival funcionou de maneira muito eficiente e sem burocracias. Em poucos minutos, nossos copos já estavam cheios de Holy Cow.

livrinho IPA Day

E por falar nisso, quando o copo oficial da festa foi divulgado, ficamos meio desconfiados. Essa moda do pote de geleia apareceu por aqui recentemente, e os bares que aderiram à onda usam frascos muito grandes e não muito anatômicos. Como metade da nossa equipe tem cultivado os pelos faciais com afinco, esses copos não têm sido muito bem vistos por aqui. Mas o que parecia uma viagem no vidro de maionese acabou se mostrando uma grande sacada da organização. A versão usada no IPA Day é um pouco menor e, consequentemente, mais anatômica. Nada de beber e babar! Um cordão foi adaptado à tampa do pote, facilitando muito a vida de quem sofre de ansiedade de separação do copo. Era só fechar a tampa e pendurar o “copote” ao pescoço na hora de ir ao banheiro, comprar comida, beber água… Nada de ficar equilibrando copo, carteira, celular e câmera.

Copo da multifuncionalidade.
Copo da multifuncionalidade.

O espaço do evento era dividido em três ambientes: uma grande pista com o palco para as bandas, um mezanino com vista para a pista e um jardim externo. As barraquinhas com as 22 IPAs do festival estavam espalhadas pelos ambientes, o que deixou as filas bem rápidas. A única fila mais demorada era a da KombIPA, da Bodebrown, estacionada justamente na área externa, o que acabou deixando a galera com a cor do verão. Talvez a opção de deixar as torneiras como self-service no começo da festa, ainda que interessante, não tenha sido a mais acertada, mas o importante é que a Cacau IPA, eleita a melhor cerveja do festival, só acabou quando a noite já havia caído.

área externa IPA Day

Do lado de fora, havia também um carrinho de churros, além do KomBurguer, que servia cachorro quente e um delicioso sanduíche de pulled pork. Na área interna, o menu incluía umas coxinhas sensacionais, costelinhas de porco e pratos vegetarianos. Era possível circular com facilidade e sem passar calor, ainda que o festival estivesse cheio e o dia, quente. Na área externa, havia sempre lugar para sentar, relaxar e tomar sua cerveja batendo papo.

área interna IPA Day

O IPA Day 2013 foi definitivamente o melhor festival a que já fomos no Brasil. O dia estava lindo, as pessoas interagiam de forma agradável e divertida, a música era boa, a comida estava deliciosa e o nível das cervejas era altíssimo. Certamente estaremos presentes na próxima edição. A única coisa que gostaríamos que melhorasse é a distribuição de água, que ficou restrita a um só lugar e com muita fila. O ideal seria poder tomar água no intervalo entre as cervejas, tanto para limpar o paladar quanto para hidratar e evitar a ressaca no dia seguinte!

Weekend de la Bière 01

Weekend de la Bière

Weekend de la Bière 01

A Grand-Place de Bruxelas é um dos lugares mais bonitos de toda a Europa. Nela fica localizada a prefeitura de Bruxelas, ladeada pelas sedes das guildas medievais. Os registros mais antigos da Grand-Place são do século X, mas sua forma atual data do fim do século XVII. A praça foi completamente destruída pelos franceses em 1695 e, apenas quatro anos depois, já estava reerguida e mais bonita do que nunca, graças à exigência do governo de que todas as plantas de reconstrução fossem aprovadas, gerando um conjunto bastante harmonioso.

Weekend de la Bière 02

Uma das guildas que tiveram o direito de construir sua sede no principal endereço de Bruxelas foi a Guilda dos Cervejeiros. De todos os prédios históricos da praça, o único que continua representando a mesma classe é justamente a Maison des Brasseurs, que hoje abriga a sede da Associação dos Cervejeiros Belgas.

A Grand-Place é sede de diversas festas durante todo o ano, mas um dos mais aguardados festivais para o viajante cervejeiro é justamente o Weekend de la Bière, que ocorre no primeiro final de semana de setembro e conta com a presença de cervejarias de toda a Bélgica. Comparecemos à edição de 2012.

Confraria St. Feuillien

Durante os três dias de festa, Bruxelas recebe em suas ruas cervejeiros vestidos em trajes típicos, escoltados por guardas medievais. Das janelas da Maison des Brasseurs, corneteiros anunciam o início da festa após a missa e a condecoração dos cervejeiros que mais se destacaram. As cervejarias também capricham: suas confrarias desfilam paramentadas e com “tacinhas” de cerveja em punho. Durante o festival, bandinhas de jazz circulam entre a multidão, improvisando com qualquer tipo de aparato que encontram pela frente.

Bandinha

A festa se divide em três ambientes. A Grand-Place recebe as barraquinhas das cervejarias. São mais de 350 rótulos de dezenas de cervejarias: você pode tomar desde uma Jupiler da Ambev (nãããão!) até uma Westvleteren. É lá também que as bandinhas circulam e uma barraquinha serve comidas simples de rua (nesse caso, escargots e mexilhões).

Escargots

Outro espaço é a “Beer Street”, localizada nos fundos da Bolsa de Valores de Bruxelas. Trata-se de um grande balcão de 50 metros de comprimento com várias cervejas na pressão. O terceiro ambiente, fechado, é o imponente prédio da própria Bolsa de Valores. Lá, de hora em hora são servidas três cervejas diferentes com pratos harmonizados.

Harmonização na Bolsa de Valores

Todas as cervejas são servidas em suas respectivas taças de vidro. Como funciona isso? Você compra as tampinhas de cerveja – moeda oficial do festival que pode ser utilizada em qualquer dos dias, como deveria acontecer em todos os festivais do mundo – e mais uma ficha amarela. A ficha amarela serve de caução para o copo. Ao pedir a cerveja, você entrega as tampinhas correspondentes ao valor e também a ficha amarela. Terminada a cerveja, devolve-se a taça, pega-se a fichinha de volta. No fim do festival, o caixa devolve o valor da ficha amarela. Simples, não?

Carta de cervejas do Weekend de la Bière
Carta de cervejas do Weekend de la Bière

Entre o público, há todo tipo de gente. Conversamos com americanos aficionados por cerveja, belgas que trabalhavam nas cervejarias participantes, europeus mochileiros que deram a sorte de visitar Bruxelas durante o festival, e também um simpático chinês que distribuía revistas chinesas sobre cerveja. Por tudo o que envolve, o festival é realmente imperdível. Temos apenas uma única crítica, que faremos em forma de sugestão: procure uma hospedagem nos entornos da Grand-Place, porque os banheiros químicos, além de pagos, são bem poucos.

Mais fotos do Weekend de la Bière aqui.

Expedição Cervejeira

Expedição Cervejeira

Expedição Cervejeira

A melhor época para se viajar para a Bélgica é o início de setembro. É no primeiro final de semana desse mês que acontece o Weekend de la Bière, o principal festival de cervejas da Bélgica, montado na belíssima Grand-Place de Bruxelas. O Weekend de la Bière é o paraíso dos entusiastas da cerveja belga: o festival oferece mais de 350 rótulos locais.

Weekend de la Bière, na Grand-Place de Bruxelas
Weekend de la Bière, na Grand-Place de Bruxelas

Esse é o período, também, em que os campos de lúpulo estão no seu ponto mais esplendoroso, prontos para a colheita.

Colheita de lúpulo
Colheita de lúpulo

Para ficar ainda melhor, o clima, nessa época, é dos mais agradáveis. Sem o frio típico das outras estações, setembro é o mês menos chuvoso do verão, o que faz com que este seja um excelente período para se conhecer as cidades medievais, passear pelos campos e florestas belgas e navegar pelos canais holandeses.

Brugge
Brugge

Foi pensando nisso que escolhemos o mês de setembro para acompanhar um grupo por uma verdadeira expedição cervejeira. Em parceria com a Freeway e a PiU Comunica, criamos um roteiro com o que vivenciamos de melhor em nossas viagens pela Bélgica e Holanda.

Estradinha na região das Ardenas
Estradinha na região das Ardenas

Durante 14 dias, visitaremos cervejarias mundialmente famosas, mas também destinos cervejeiros obscuros, garimpados em nossas viagens; saborearemos a excelente culinária belga, recheada de pratos preparados e harmonizados com cerveja; passearemos por entre campos de lúpulo em flor; ficaremos hospedados no hotel da cervejaria St. Bernardus, fechado exclusivamente para nosso grupo, com todas as cervejas da marca à nossa disposição; almoçaremos entre enormes barris de carvalho onde repousam milhares de litros de Rodenbach; visitaremos mosteiros trapistas e seus respectivos bares oficiais, além de excêntricas cervejarias produtoras de lambic; e ainda daremos um pulinho na França, para jantar no restaurante oficial da Mont des Cats.

Almoço entre os barris da Rodenbach
Almoço entre os barris da Rodenbach

A viagem acontece de 4 a 18 de setembro. Se você se interessa por cerveja, ou tem vontade de conhecer Bélgica e Holanda e ainda aproveitar para desfrutar de todo o potencial gastronômico dessa região (os melhores chocolates, queijos premiados, culinária surpreendente e, claro, a escola cervejeira mais variada, criativa e artesanal), não deixe de conferir o site da Freeway. Lá você encontra o roteiro detalhado, valores e informações de contato.

Brouwerij 't IJ, cervejaria holandesa aos pés de um antigo moinho de Amsterdã
Brouwerij ‘t IJ, cervejaria holandesa aos pés de um antigo moinho de Amsterdã

Caso tenha alguma dúvida ou queira mais alguma informação, fique à vontade para entrar em contato também conosco, pelo formulário de contato do blog.

Orval Vert

Roteiro Trapista – Parte IV

Abbaye Notre-Dame d’Orval

Para encerrar a série “Roteiro Trapista”, guardamos o melhor para o final. A visita à Abbaye d’Orval foi certamente um dos pontos mais altos da viagem. Dentre as cervejarias trapistas, a Orval é a que possibilita a visita mais completa, bonita e interessante.

Sala de brassagem
Sala de brassagem

Somente durante dois dias do ano, a Abbaye d’Orval abre as portas de sua cervejaria para visitantes previamente cadastrados no site. No restante do ano, porém, ainda há muito o que visitar em Orval.

Visitamos a abadia em um dos dias de abertura ao público. A fábrica é muito bonita por dentro: tanques de cobre, chão de vidro e vitrais nas paredes dão um ar eclesiástico à sala de brassagem. É possível passear entre os tanques de fermentação horizontais, e cruzar com um monge por lá não é nada incomum. Cenas inusitadas tornam tudo mais interessante. Enquanto ouvíamos explicações sobre os lúpulos utilizados no dry hopping, um casal se aproxima de um funcionário da fábrica e fala algo em seu ouvido. Após uma resposta positiva, a mulher tira uma garrafa de vidro da bolsa. Eis que o funcionário abre o tanque de fermentação, enche a garrafa com o fermento utilizado na Orval e entrega-a para o casal, dizendo: “Não vão fazer uma cerveja melhor que a nossa!”.

Monge passeando pelos fermentadores
Monge passeando pelos fermentadores

O mosteiro atual está localizado em um vale e foi construído em volta da antiga abadia, que foi completamente destruída pelas tropas napoleônicas. Suas ruínas ficam abertas para visita, bem como alguns de seus prédios. A antiga cervejaria virou um pequeno museu, onde vídeos demonstram os processos de produção em uma instalação futurista. O museu da Orval conta ainda com uma coleção de garrafas e taças antigas, além de outras curiosidades.

Museu da Orval
Museu da Orval

A abadia por si só já vale a visita. Os prédios construídos na década de 1920 foram projetados pelo arquiteto Henry Vaes, e o complexo é um dos grandes representantes do estilo art décor da Bélgica. O mesmo arquiteto foi responsável pelo design das garrafas e dos rótulos usados até hoje com pouquíssimas modificações.

O belo e impressionante jardim interno do mosteiro pode ser visto de longe. É fechado e reservado aos monges e àqueles que se hospedam por lá. Na Bélgica, é muito comum hospedar-se nos mosteiros em busca de paz interior, e muitos jovens acabam usando esse retiro para estudar em épocas de provas. Os hóspedes devem seguir o mesmo estilo de vida regrado dos monges.

Abbaye Notre-Dame d’Orval
Abbaye Notre-Dame d’Orval

No subsolo da igreja fica o museu do mosteiro, com peças de metal que os monges produziam em séculos passados. A antiga farmácia também é aberta a visitação, e hoje suas salas foram convertidas em um espaço para exposições. Antes de ir embora, vale passar na lojinha do mosteiro, que vende artigos religiosos, livros, suvenires, cerveja e queijo.

Depois de visitar a abadia, o L’Ange Gardien, café oficial da Orval, é parada obrigatória. O restaurante serve pratos saborosos, além da Orval Vert (ou Petite Orval), a versão da Orval sem a refermentação na garrafa. O resultado é uma cerveja de teor alcoólico menor, dry hopping mais evidente e sem o toque característico do Brettanomyces.

Orval Vert
Orval Vert

Outra coisa muito legal da Orval é que a cervejaria confere um título aos bares que vendem sua cerveja da forma correta. Se, ao entrar em um bar da Bélgica, você vir uma plaquinha com os dizeres “Ambassadeur d’Orval,” pode ter certeza de que vai encontrar Orval na temperatura ideal, servida no copo correto e, mais importante, poderá escolher entre uma garrafa nova ou uma garrafa com pelo menos seis meses de idade, o que tem um impacto tremendo no sabor.

L'Ange Gardien
L’Ange Gardien

A Abbaye d’Orval, além de produzir nossa cerveja trapista preferida, proporcionou-nos um dos dias mais incríveis da nossa viagem. A visita é realmente imperdível.

Mais fotos da nossa visita à Orval aqui.

Comes e Bebes

Comes e Bebes

Comes e Bebes

A combinação perfeita

Você sabia que a enorme variedade de estilos de cerveja proporciona harmonizações incríveis? Diferentemente das outras bebidas, é possível combinar cerveja com todo tipo de prato, inclusive – e principalmente! – queijos e sobremesas, basta escolher a cerveja certa. Uma boa harmonização com cerveja traz um novo componente sensorial para a refeição, tornando a experiência gastronômica mais completa. Neste evento, serviremos quatro cervejas de diferentes estilos, harmonizadas com queijos, petiscos e doces, e explicaremos como montar harmonizações bem-sucedidas de diferentes pratos e ingredientes com os variados estilos de cerveja.

As inscrições devem ser feitas diretamente com a MundoMundano.

Amanhã divulgaremos os petiscos e as cervejas na página do evento no facebook.

Update: Fotos do evento na nossa página no facebook.

Degustação mista

Roteiro Trapista – Parte III

Chimay e Rochefort

As cervejarias trapistas da Valônia (parte da Bélgica que fala francês) ficam razoavelmente próximas umas das outras, de forma que é possível visitá-las escolhendo-se uma das cidades como base. Nós, no entanto, optamos por nos hospedar tanto em Chimay quanto em Orval (sobre a qual escreveremos em outro post), passando pelo mosteiro de Rochefort no caminho entre uma e outra.

Abbaye Notre-Dame de Scourmont – Chimay

Visitar a Chimay tem um significado especial para nós, afinal de contas, em 2008, passamos alguns dias da nossa lua de mel no Auberge de Poteaupré, hotel e restaurante da Chimay. Gostamos tanto que voltamos no ano seguinte, ainda que só por uma tarde.

Abbaye Notre-Dame de Scourmont
Abbaye Notre-Dame de Scourmont

De 2009 para cá, muita coisa mudou no Auberge de Poteaupré: além de hotel e restaurante, o estabelecimento agora conta também com o Espace Chimay, um espaço inaugurado em 2011 para contar a história do mosteiro e da produção da cerveja. A antiga lojinha da cervejaria, que antes ficava dentro do restaurante e permanecia fechada boa parte do tempo, agora faz parte do Espace Chimay e está sempre aberta. Em 2008, nenhum dos funcionários do Auberge falava inglês; na nossa última visita, todos falavam.

Espace Chimay
Espace Chimay

Já o hotel, que tem apenas sete quartos, não mudou muito. Todos os quartos são decorados com anúncios antigos e atuais da cervejaria, e o frigobar é abastecido de Chimay. Como o hotel fica na área rural da cidade, a vista de metade dos quartos é a área externa do restaurante, um campo repleto de vacas e o bosque da região.

Restaurante Auberge de Poteaupré
Restaurante do Auberge de Poteaupré

O restaurante serve uma variedade de pratos, a maioria preparada com as cervejas e os queijos produzidos pelos monges. Cada um dos queijos Chimay harmoniza com uma das cervejas, e o restaurante oferece não apenas a popular degustação de cervejas e a tradicional tábua de queijos como também degustações mistas. O cardápio inclui almôndegas ao molho Chimay (de queijo ou cerveja), truta rústica, camarão com molho de tomate gratinado com queijo Chimay e coelho com ameixas na cerveja. Para sobremesa, tiramisù, mousse de chocolate com spéculoos e sabayon. Spéculoos é um biscoito típico da Bélgica, feito com canela, cravo, gengibre, noz moscada e cardamomo. Sabayon é como os belgas chamam a tradicional sobremesa italiana “zabaione”. Na versão belga, porém, é comum utilizar-se cerveja no lugar do vinho. Diversas cervejarias oferecem a sobremesa em seu cardápio.

Degustação mista
Degustação mista

Além das três cervejas tradicionais, há ainda mais uma, encontrada exclusivamente no Auberge de Poteaupré: a Chimay Dorée. Leve e refrescante, é a cerveja produzida para consumo próprio dos monges. As sobras vão para o Auberge e, ocasionalmente, é possível encontrar a Chimay Dorée em lojas especializadas de Bruxelas. Em nossa última visita, tivemos a chance de experimentar também a Chimay 150ème, uma tripel intensamente condimentada, produzida em comemoração aos 150 anos do mosteiro.

Abbaye Notre-Dame de Saint-Rémy – Rochefort

Por mais triste que seja, a verdade é que, do ponto de vista cervejeiro, não há praticamente nada para se fazer em Rochefort. Ocasionalmente, a Abbaye Notre-Dame de Saint Rémy abre sua cervejaria para alguns grupos, geralmente de pessoas ligadas ao mercado cervejeiro. Porém, de forma geral, a cervejaria não é acessível a visitantes. Sabemos que a Rochefort não é a única cervejaria trapista que não permite visitas; a diferença é que todas as outras têm um café oficial onde servem suas cervejas na pressão.

Abbaye Notre-Dame de Saint-Rémy
Abbaye Notre-Dame de Saint-Rémy

Até pouco tempo, a cidade contava com um restaurante que funcionava como café da cervejaria, apesar de servir somente a versão engarrafada das cervejas do mosteiro. Agora, que esse restaurante fechou, a visita a Rochefort se resume a uma pequena área externa e à igreja do mosteiro. Na nossa opinião, não vale a viagem. É preferível visitar alguma outra cervejaria não-trapista ou passar o dia experimentando cervejas em um bom bar.

Mais fotos desse trecho da viagem na nossa página no facebook.

There is no strong beer

Anchor Brewing Company

There is no strong beer

A escola cervejeira americana é definitivamente a bola da vez. Não apenas no Brasil como também nos países de escolas mais tradicionais, os estilos americanos despertam a curiosidade e ocupam cada vez mais espaço no mercado. E foi na costa oeste americana que se iniciou, na década de 1970, a grande revolução cervejeira dos EUA, responsável pelo atual destaque do país no cenário cervejeiro. Uma cervejaria, no entanto, foi a precursora disso tudo: a Anchor Brewing Company.

Em 1965, durante uma refeição em um dos únicos restaurantes que ainda serviam Steam Beer, Fritz Maytag ficou sabendo que a cervejaria Anchor estava prestes a fechar. Após uma visita ao local, Fritz resolveu comprar uma parte da empresa. Estabeleceu para si a meta de aprender a fazer cerveja e entender o mercado. Modernizou a fábrica e pesquisou a história e as receitas tradicionais das cervejas produzidas na região e em outros lugares do mundo. Em 1971, lançou a versão engarrafada da Anchor Steam Beer. Termos como “cerveja artesanal” e “microcervejaria” ainda não eram utilizados, mas logo ficou claro para os norte-americanos que a Anchor havia instituído conceitos até então inéditos.

Anchor Brewing Company
Anchor Brewing Company

Desde 1979, a cervejaria está instalada no prédio de uma antiga fábrica de café, na Mariposa Street. A fábrica está aberta para visitas, que devem ser agendadas exclusivamente por telefone. A visita é gratuita e inclui degustação das cervejas produzidas pela Anchor, além de uma apresentação sobre a história da cervejaria.

A origem do estilo e do nome “Steam Beer”

O século XIX viu surgir o primeiro estilo de cerveja genuinamente americano. Na época da corrida do ouro, não havia refrigeração disponível em São Francisco. Assim, a cerveja local, produzida com leveduras de lager, fermentava a temperaturas de ale, o que originou um novo estilo. Além disso, o mosto era resfriado em tanques no alto das fábricas. Por causa desse processo, as cervejarias ficavam constantemente envolvidas por uma nuvem de vapor, o que acabou batizando as cervejas da região.

Hoje, o nome “Steam Beer” é marca registrada da Anchor. Outras cervejarias californianas também fabricam cervejas desse estilo, mas sob a denominação de “California Common”.

Cozinha da Anchor
Cozinha da Anchor

As cervejas:

Steam Beer – Única Steam Beer ainda em produção desde a criação do estilo, na época da Corrida do Ouro. Trata-se de uma lager fermentada a temperaturas de ale. Fritz Maytag pesquisou as receitas originais e resgatou o estilo em 1971.

Porter – Segunda cerveja lançada pela Anchor, em 1972. Nessa época, até os ingleses haviam parado de produzir porters, e a Anchor Porter pode ser considerada uma das principais responsáveis pelo renascimento do estilo.

Liberty Ale – Primeira IPA americana feita nos EUA depois da lei seca. Uma das pioneiras no uso de lúpulo Cascade e a primeira cerveja moderna a usar dry hopping. Sem dúvida, uma das principais responsáveis por moldar a atual revolução cervejeira.

Old Foghorn – Primeira American barley wine moderna. Produzida com uma dose generosa de lúpulos americanos, acabou abrindo caminho para a revitalização do estilo até mesmo no Reino Unido.

Degustação Anchor
Degustação ao final da visita

Small Beer – Feita com a segunda lavagem do mosto da Old Foghorn, a Small Beer é uma bitter inspirada na tradição inglesa de se fazer duas cervejas com o mesmo mosto. Por ser uma cerveja leve de baixo teor alcoólico (3,3%), é o que os ingleses chamam de session beer.

Breckle’s Brown Ale – É a cerveja mais nova do portfólio fixo da Anchor. Em 2011, a Anchor resolveu homenagear seu primeiro mestre-cervejeiro, Gottlieb Brekle, resgatando uma receita criada no século XIX.

Bock Bier – Disponível de janeiro a março nos EUA, é uma bock bem fiel à escola alemã. Utiliza maltes de cevada e de trigo e tem o toque caramelizado típico do estilo.

Humming Ale – American Pale Ale sazonal criada para comemorar os 30 anos da fábrica atual da Anchor, é produzida com o característico lúpulo Nelson Sauvin e está disponível de julho a novembro.

Summer Ale – Primeira cerveja de trigo lançada nos EUA depois da lei seca. Mais uma sazonal, fabricada desde o verão de 1984.

Christmas Ale – Desde 1975, a Anchor produz sua cerveja de Natal, com uma receita diferente a cada ano. O desenho do belo rótulo, sempre em verde e vermelho, também varia a cada edição.

Mais fotos da nossa visita à Anchor na nossa página no facebook.

Heineken Experience

Destinos Cervejeiros em Amsterdã – Parte II

Amsterdã II

Este post é continuação do post anterior sobre destinos cervejeiros em Amsterdã.

Destinos Cervejeiros em Amsterdã – Parte II

A maioria dos turistas que viajam para Amsterdã, mesmo aqueles que não são grandes entusiastas da cerveja, inclui a Heineken Experience em seu roteiro de viagem. A Heineken Experience é, mais do que um destino cervejeiro, uma atração turística: praticamente um parque temático/lavagem cerebral, onde o turista aprende um pouco sobre a história da cervejaria, o processo de fabricação e até mesmo sobre o marketing da empresa. A visita diverte até quem não gosta de cerveja, sem deixar de ser interessante para os aficionados. No final, o turista é encaminhado para um bar interno, onde pode escolher entre dois chopps “diferentes”: Heineken e Heineken supergelada.

Heineken Experience
Heineken Experience

Já as atrações cervejeiras são outra história. Um dos mais tradicionais destinos cervejeiros de Amsterdã é o In De Wildeman (Kolksteeg, 3). Aqui, além de cervejas holandesas e belgas, encontram-se várias das mais desejadas cervejas do mundo todo. São 250 cervejas diferentes em garrafa e 18 na pressão. Para saber de antemão quais barris estão ligados às torneiras, o bar disponibiliza um aplicativo para iOS e Android com as opções do dia. A cerveja da casa, produzida pela americana Flying Dog, é uma “Farmhouse IPA”, o que basicamente quer dizer “Saison com muito lúpulo”. O bar ainda oferece edições limitadas de várias cervejarias do mundo todo, como as Zero IBU IPAs da Flying Dog e da Brewdog.

In De Wildeman
In De Wildeman

Outro brewpub de Amsterdã é o De Bekeerde Suster (Kloveniersbrugwal, 6-8), que faz parte de um grupo que conta com outros três cafés. O bar produz três cervejas de inspiração belga: Witte Ros (5% abv), Blonde Ros (6%) e Manke Monnik (tripel de 7,2%). Ocasionalmente, é possível encontrar uma sazonal em suas torneiras. As belas instalações de cobre, que ficam no próprio salão do bar, chamam mais atenção do que as cervejas em si. Portanto, a não ser que o programa seja passear pelo Nieuwmarkt ou cruzar o Red Light District, talvez não valha a pena desviar-se do caminho para visitar este brewpub.

De Bekeerde Suster
De Bekeerde Suster

Saindo um pouco da rota turística da cidade, mas aos pés do único moinho ainda existente em Amsterdã, fica a Brouwerij ’t IJ (Funenkade 7). Uma das mais respeitadas cervejarias artesanais da cidade, produz seis cervejas em sua linha fixa, além de sazonais e edições especiais. Não é rara a presença de alguns turistas, mas o bar da cervejaria é frequentado majoritariamente por locais, que ocupam sua ampla e agradável área externa nos fins de tarde e finais de semana de verão. A localização mais afastada traz ainda uma vantagem: o preço das cervejas fica mais em conta. A taça varia de 2,40 a 2,60 euros, e a degustação de cinco estilos sai por 7,50 euros. O bar também serve alguns petiscos. Nos finais de semana, é possível visitar a cervejaria.

Brouwerij ’t IJ
Brouwerij ’t IJ

Antes de deixar a cidade, vale conferir a De Bierkoning (Paleisstraat 125). A loja oferece cervejas do mundo todo, inclusive edições limitadas e cervejas safradas. A ’t IJ produz a Especiale Vlo exclusivamente para a loja. Além de várias cervejas artesanais holandesas, é possível encontrar alguns dos mais cobiçados rótulos dos EUA e de diversos países europeus. Cervejarias como Lost Abbey, Mikkeller e 3 Fonteinen estão representadas por suas crias mais procuradas. Como nunca há tempo suficiente para experimentar todas as cervejas que Amsterdã oferece, esta é a chance de abastecer as malas e levar para a casa mais algumas preciosidades.

De Bierkoning
De Bierkoning

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Degustação da Prael

Destinos Cervejeiros em Amsterdã – Parte I

Amsterdã I

Escrevemos um artigo sobre destinos cervejeiros em Amsterdã para a revista Gula do mês passado. Para quem perdeu, estamos publicando o texto original que enviamos para a revista dividido em dois posts, com algumas dicas extras.

Destinos Cervejeiros em Amsterdã

Do ponto de vista cervejeiro, pode-se dizer que a localização da Holanda é estratégica: a leste, está a Alemanha; ao sul, a Bélgica; e a oeste, atravessando-se o Mar do Norte, o Reino Unido. Cercada pelas três escolas cervejeiras tradicionais, a Holanda sofre forte influência de todos os lados. A cerveja mais consumida é uma lager, e em outubro só se toma bock. A única cerveja trapista não belga está em solo holandês. Porters e stouts estão presentes nos portfólios de várias cervejarias locais. Toda essa mistura faz de Amsterdã um grande destino cervejeiro. São inúmeros bares e restaurantes, que oferecem cartas de cervejas e harmonizações interessantes, além de brewpubs e lojas com rótulos do mundo todo.

Gollem
Entrada do Gollem’s Proeflokaal

O Gollem’s Proeflokaal (Overtoom 160-162) é um dos mais famosos bares especializados em cervejas de Amsterdã. Já na década de 1970, foi o primeiro estabelecimento da cidade a comercializar cervejas belgas e de outros países. O bar original está fechado atualmente, mas as atividades continuam no Proeflokaal, que fica perto da praça dos museus. Além de 22 cervejas diferentes na pressão, o bar conta com um cardápio completo, que inclui fondue de queijos trapistas e o “gigantesco hambúrguer flamengo”, além de pratos da culinária belga.

Beer Temple
Entrada do Beer Temple

O Beer Temple (Nieuwezijds Voorburgwal 250) é um bar dedicado a cervejas da escola americana, contando com 30 rótulos diferentes na pressão e dezenas de garrafas de cervejarias como Left Hand, Southern Tier, Flying Dog, BrewDog e Mikkeller. O bar ainda oferece uma American Pale Ale da casa, a Tempelbier, que não economiza nos lúpulos americanos. Para acompanhar a cerveja, a tábua de queijo trapista é uma boa (e a única) pedida.

Arendsnest
Arendsnest

Do mesmo dono do Beer Temple, mas focado em cervejarias locais, o Arendsnest (Herengracht 90) disponibiliza 30 cervejas holandesas na pressão e mais de 300 em garrafa. Cervejarias como Jopen, De Molen, Christoffel e La Trappe marcam presença, ao lado de microcervejarias de todo o país. Há ainda diversas cervejas sazonais, além de algumas safradas.

Lieve
Lieve

Depois de beber no Arendsnest, a dica é jantar no restaurante ao lado, o Lieve (Herengracht 88), especializado em comida belga e harmonizações. São três tipos de menu disponíveis: o Huiskamer serve um jantar tradicional à la carte, com entrada, prato principal e sobremesa; o Gastronomisch, mais extenso, inclui entrada, sopa, primeiro prato, segundo prato e sobremesa; e o Belgisch Barok, o mais interessante para quem vai ao restaurante acompanhado, possibilita experimentar múltiplas entradas, pratos principais e sobremesas, que são compartilhados por todos que dividem a mesa. Para quem procura a experiência completa, há ainda a opção de harmonizar cada prato com uma cerveja escolhida pelo chef. A panna cotta de cenoura com toque de gengibre, por exemplo, é servida com Hoegaarden Grand Cru, enquanto o tiramisù de cerveja com pêssego é acompanhado da Barbãr, que leva mel na composição.

Prael
Prael

Se a ideia for visitar um brewpub, o Prael (Oudezijds Armsteeg 26) é uma opção interessante. Com cervejas batizadas com nomes de cantores holandeses, a cervejaria passeia por várias escolas e faz diversas experiências. Tripel, Kölsch, bock, stout e IPA estão entre alguns dos estilos disponíveis. A cervejaria produz diferentes cervejas dentro do mesmo estilo e costuma criar edições especiais de sua carta regular, como a Andre Onder De Zoden, uma versão da bock da casa feita com malte defumado. As cervejas engarrafadas são vendidas na loja da cervejaria (Oudezijds Voorburgwal 30 – basta dobrar a esquina), de onde partem visitas guiadas que incluem degustação.

Degustação Prael
Degustação da Prael

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No próximo post, mais dicas de destinos cervejeiros em Amsterdã.

Gregorius

Gregorius

A nova trapista do Stift Engelszell

Apesar de ser produzida na Áustria, a Gregorius não segue a escola cervejeira alemã. O mosteiro de Engelszell optou, pelo menos em teoria, por criar uma receita compatível com as de outras cervejarias trapistas, apostando em uma cerveja de alta fermentação com “cara” de belga. A cervejaria classifica a Gregorius como uma tripel, o que pode causar estranhamento, uma vez que a cerveja é escura e, também no olfato e paladar, aproxima-se mais de uma dark strong ale. Isso se nos esforçarmos para enquadrá-la na escola belga.

No lugar do açúcar-cândi geralmente utilizado pelos belgas em suas ales, os austríacos optaram por acrescentar mel. No olfato, além do aroma de frutas secas comumente presente nas dubbel e dark strong ales, percebem-se notas de maltes torrados e até levemente defumados, mais comuns em cervejas escuras alemãs. O mel contribui com um toque mais terroso. Na boca, a cerveja é doce, com notas de chocolate, alcaçuz e uva-passa. Amargor moderado, corpo médio a alto e álcool bem presente, de forma um pouco desequilibrada. Baixa drinkability, mesmo levando-se em conta o estilo. Como se não bastasse, a receita ainda inclui levedura de vinho (possivelmente para fermentar os açúcares do mel).

O selo trapista mostra claramente seu peso nas opiniões sobre a Gregorius, ainda muito divergentes. Enquanto alguns rasgam elogios à nova cerveja, outros dizem que a inclusão do mosteiro de Engelszell entre as cervejarias trapistas poderia ser um sinal de banalização do selo. Na nossa opinião, não faz sentido falar em “banalização do selo”, uma vez que os critérios da Associação Internacional Trapista não foram relaxados para incluir a nova cervejaria. Por outro lado, a Gregorius ainda não atingiu o patamar de qualidade trapista, e isso não há selo que mude.

Cozinha da La Trappe

Roteiro Trapista – Parte II

La Trappe, Westmalle e Achel

Para visitar a La Trappe, na Holanda, assim como a Westmalle e a Achel, na parte flamenga da Bélgica, escolhemos a Antuérpia como base. De lá até nossos destinos, a viagem de carro leva entre meia hora e uma hora e meia.

Onze Lieve Vrouw van Koningshoeven – La Trappe

Única holandesa da turma, a cervejaria fica na cidade de Tilburg, perto da fronteira com a Bélgica. É de longe a trapista com visão comercial mais avançada. Em 1999, a Bierbrouwerij de Koningshoeven havia se tornado tão comercial que chegou a perder o selo trapista durante alguns anos, por não se adequar às regras da Associação Internacional Trapista. Em 2005, a cervejaria recuperou o direito de usar o selo.

Mosteiro da La Trappe

O mosteiro de Koningshoeven foi fundado em 1881 por monges vindos da França, do mosteiro de Mont des Cats. Naquela época, as leis francesas contra a Igreja Católica se tornaram uma ameaça aos mosteiros. Temendo por sua situação, os monges decidiram comprar terras na Holanda e construir um mosteiro temporário como refúgio. O plano era se sustentar com o que plantassem e produzissem. O terreno, no entanto, não era bom para o plantio, e os monges logo tiveram que arrumar outra fonte de renda. Foi aí que resolveram produzir cerveja, em 1884.

Cozinha La Trappe
Cozinha da La Trappe

Já no século XX, durante o período de 1969 a 1980 (antes da existência do selo trapista), o mosteiro de Koningshoeven firmou um contrato com a Stella Artois, para a produção de suas cervejas, todas lagers. Em 1980, o mosteiro retomou as atividades cervejeiras e passou a produzir uma ale, batizando-a de La Trappe. Seu portfólio foi crescendo continuamente e, hoje, a Koningshoeven é a cervejaria trapista mais prolífica, com 10 rótulos diferentes, além das variações dos lotes da Oak Aged. Pouca gente sabe, mas a Koningshoeven ainda produz receitas para outras cervejarias, como a Tilburg’s Dutch Brown Ale e as Urthel, porém sem seguir os preceitos para a fabricação de produtos trapistas.

A Koningshoeven é a única trapista que oferece regularmente visitas guiadas à cervejaria, com direito a degustação. As visitas são conduzidas em inglês ou holandês, dependendo do grupo. Caso não seja possível agendar uma visita no seu idioma preferido, o visitante recebe um panfleto contando a história da abadia e da cervejaria, para não se perder durante as explicações.

Café da La Trappe

O café da La Trappe é moderno e muito agradável. O cardápio é variado e inclui hambúrgueres, massas e sobremesas. Com exceção da Oak Aged, o café oferece todas as La Trappe na pressão. Com tanta cerveja e um ambiente tão divertido, é possível ficar horas por lá sem ver o tempo passar.

Para terminar, uma loja dentro do mosteiro oferece, além das cervejas lá produzidas, diversos produtos religiosos, doces, chocolates e souvenires da marca La Trappe.

Loja da La Trappe

Onze-Lieve-Vrouw van het Heilig Hart – Westmalle

Dentre as cervejarias trapistas, a Westmalle é uma das mais antigas, fabricando cerveja ininterruptamente desde 1836. Sua tripel, em produção desde 1934, é considerada uma das precursoras do estilo. A Westmalle é uma das poucas cervejarias trapistas que faz uso de lúpulos em flor, além de ser responsável por isolar uma cepa de levedura utilizada não apenas lá, mas também na Achel e na Westvleteren. Irmão Thomas, que até o ano de 1998 era seu mestre-cervejeiro, é um dos mais influentes monges cervejeiros entre os trapistas e, mesmo depois de aposentado, ajudou a implantar a cervejaria do mosteiro de Achel.

Café Trappisten

Quase em frente ao mosteiro, no mesmo lugar em que ficava o antigo Café Trappisten, foi construído um novo café mais moderno. O interessante é que preservaram a parede com a antiga entrada, que agora leva a um jardim. O estabelecimento serve as duas cervejas produzidas comercialmente no mosteiro (dubbel e tripel) e, ocasionalmente, uma terceira, a Westmalle Extra, produzida originalmente para consumo dos monges. O Café Trappisten é um dos poucos lugares em que é possível encontrar a Westmalle Dubbel na pressão.

Café Trappisten

No balcão do café, é possível comprar produtos trapistas de outros mosteiros, como vinhos, compotas e sabonetes. A comida do café é elegante e de qualidade. Os pratos incluem massas com queijos trapistas e receitas tradicionais belgas, como Carbonnade Flamande, feita com Westmalle Dubbel. A sobremesa? Sorvete com calda de passas e Westmalle Tripel.

Carbonnade Flamande do Café Trappisten

Achelse Kluis – Achel

A Achel era a mais nova cervejaria trapista, até a chegada da Gregorius (do mosteiro de Engelszell). Apesar de seu histórico cervejeiro no século XIX, a Achel não produzia cerveja desde o fim da Primeira Guerra, quando sua planta foi desmantelada pelos alemães, com o intuito de reutilizar o metal para fins bélicos. Em 1997, os monges resolveram retomar suas atividades cervejeiras e chamaram justamente o Irmão Thomas, que havia acabado de se aposentar como mestre-cervejeiro da Westmalle.

Fronteira entre Bélgica e Holanda e mosteiro de Achel ao fundo

O mosteiro da Achel fica quase na Holanda. Na verdade, parte do prédio do mosteiro está em solo holandês, e uma linha pintada no estacionamento indica a fronteira entre os dois países. O café da Achel fica dentro do mosteiro, separado da cervejaria por uma parede de vidro. O cardápio é simples, limitando-se a sopas e sanduíches típicos das friteries belgas. A sobremesa, adivinha! Sorvete feito com cerveja!

Café da Achel

O cliente faz o pedido diretamente no balcão e leva sua bandeja para a mesa, podendo se acomodar na parte interna do café ou nas mesas externas espalhadas pelo pátio do mosteiro. Além de vender suas duas cervejas tradicionais em garrafas de 330 ml (Achel 8° Blond e Achel 8° Bruin), o café oferece com exclusividade as versões mais leves, Achel 5° Blond e Achel 5° Bruin, na pressão.

Mesas externas do café da Achel

A cervejaria produz ainda versões mais fortes das mesmas cervejas (Achel Extra Blond e Achel Extra Bruin), com 9,5% de álcool, comercializadas em garrafas de 750 ml. A Extra Blond é vendida exclusivamente na “lojinha” do mosteiro, que abre apenas aos sábados e funciona, na verdade, como mercadinho da região. Além de artigos variados, a loja oferece uma infinidade de cervejas belgas. O preço das trapistas é mais convidativo que em qualquer outro lugar, incluindo-se as lojas das próprias cervejarias. Além disso, em setembro, o mercado da Achel foi o único lugar da Bélgica em que encontramos a Gregorius, a nova trapista austríaca. Mas disso a gente fala no próximo post…

Mais fotos desse trecho da viagem aqui.

La Corne du Bois des Pendus

Kwak x La Corne

Kwak x La Corne (ou Por que a Struise é uma cervejaria punk)

Uma atitude polêmica praticada recentemente por uma grande cervejaria belga ameaça tirar do mercado uma microcervejaria cuja produção equivale a 0,5% da sua.

A cervejaria Bosteels, de Buggenhout, produz apenas três cervejas: a DeuS, considerada a primeira bière brut do mundo; a Karmeliet, uma premiada tripel de qualidade indiscutível; e a Pauwel Kwak, cuja fama se apoia em sua armação de madeira, que também acomoda sua taça em forma de ampulheta.

Copo Kwak
Kwak

A microcervejaria d’Ebly, localizada em uma vila de mesmo nome, produz duas cervejas: a La Corne du Bois des Pendus Blonde e a La Corne du Bois des Pendus Triple. Seu jovem dono, Gaëtan Patin, fabrica suas receitas nas dependências de outra cervejaria, uma vez que ainda não possui instalações próprias. Seus produtos, ao que tudo indica, são muito apreciados pelos moradores da região, podendo ser encontrados também nos grandes centros da Bélgica e em países vizinhos.

Acontece que o copo criado pela Brasserie d’Ebly para servir suas duas cervejas incomodou a Bosteels, que resolveu processar a microcervejaria. De acordo com a Bosteels, se um copo tem uma armação de madeira como base, trata-se de cópia do copo da Kwak.

La Corne du Bois des Pendus

O copo da Kwak foi concebido, teoricamente, para que os cocheiros pudessem encaixá-lo à carruagem e beber sua cerveja sem deixar o veículo. Já o formato da taça da La Corne é uma referência ao nome da cerveja e remonta ao antigo costume de usar chifres como copo, observado em diversas culturas, inclusive entre os gauleses, que habitavam no passado a região da Bélgica.

Os custos do processo, independentemente da sentença, colocam em risco a continuidade das atividades da Brasserie d’Ebly, esta enorme ameaça à Bosteels.

E a Struise com isso?

Esta semana, a Struise, uma das mais aclamadas e criativas cervejarias artesanais da Bélgica, resolveu se posicionar publicamente em relação aos acontecimentos. Não contente em manifestar sua indignação contra a Kwak e declarar apoio irrestrito à La Corne, a cervejaria anunciou no facebook a compra de 10.000 copos do modelo yard glass, que receberão o logo da Struise e acompanharão o lançamento de uma nova cerveja. Envelhecida por dois anos em barris de borgonha e por um ano em barris de bourbon, a cerveja, uma Flanders Oud Bruin, provavelmente se chamará Rebel. No entanto, não param de chegar sugestões de nomes na página da Struise no facebook: Kawk, Kwik, Duck, Kwakzalver (“charlatão”), e por aí vai.

Yard glass

Vale dizer que a Struise, apesar de sua produção relativamente pequena e artesanal, é uma cervejaria já muito bem conceituada e estabelecida no mercado, com uma reputação a zelar. Além disso, ao contrário da Brasserie d’Ebly, que fica na parte francesa da Bélgica, a Struise está situada na parte flamenga do país, assim como a Bosteels. Para os belgas, essa divisão não costuma ser irrelevante. A Struise poderia se posicionar a favor da Bosteels, por ser uma cervejaria regional e poderosa; poderia ficar em cima do muro, já que a contenda não lhe diz respeito; e poderia se manter fiel ao que acredita, apoiando a microcervejaria e comprando a briga. Enquanto a maioria simplesmente se esconde e foge de confusão, a Struise enfrenta os grandes e protesta. Não poderia zelar melhor por sua reputação.

Se quiser apoiar a La Corne também, esta é a página da cerveja no facebook.

Bzart

Bzart Lambiek

A lambic brut da Oud Beersel

O casamento entre lambic e o método champenoise deu tão certo que é difícil acreditar que nenhuma cervejaria tenha ousado juntar as duas coisas antes. Se por um lado a produção de lambic é supertradicionalista, por outro as cervejas de fermentação espontânea são o estilo mais frequentemente comparado aos vinhos.

Talvez por falta de precedentes, a Bzart é classificada no Rate Beer e no Beer Advocate como uma gueuze. Trata-se, no entanto, de uma bière brut, produzida somente com lambic envelhecida por 13 meses, e não com um blend de lambics de diferentes idades. A base da Bzart é, portanto, uma unblended lambic. E, ainda que ocorra a adição de açúcar e levedura de champanhe, esse procedimento faz parte de uma segunda etapa, responsável por transformar a cerveja em uma bière brut.

Ao contrário das lambics puras tradicionais, que costumam apresentar pouca ou nenhuma espuma, a Bzart é, como se esperaria de uma bière brut, uma cerveja bastante carbonatada. Outra característica que difere a Bzart de sua cerveja de base é a limpidez: com o emprego do método champenoise (ou “método tradicional”, quando aplicado fora da região de Champagne), ocorre a expulsão do fermento, por meio do processo de dégorgement. Tudo isso resulta em uma cerveja dourada, transparente, com bela formação de bolhas e espuma.

Os aromas, embora atenuados pela delicadeza típica das bières brut, são característicos das lambics: notas lácticas, animalescas, amadeiradas e terrosas. No paladar, a acidez domina, mas de maneira equilibrada: a cerveja é menos agressiva que uma gueuze, porém mais ácida que uma lambic pura.

Comparada às outras bières brut belgas, esta da Oud Beersel é a que mais se assemelha a um espumante. Isso porque, assim como o vinho, sua cerveja de base é ácida. Ao contrário das outras bières brut, a acidez da Bzart resulta não só do uso de levedura de champanhe, mas também da fermentação primária da lambic por leveduras selvagens. Menos doce que as bières brut da Malheur e sem os condimentos que caracterizam a Deus, da Bosteels, a Bzart tem a acidez e a leveza típicas dos espumantes. A maior diferença fica por conta do teor alcoólico, 8%, e da complexidade e perfil excêntrico da cerveja. Delicada como um espumante, a Bzart é, ainda assim, uma cerveja selvagem.